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segunda-feira, 22 de agosto de 2016

New York

Mendigos brotam pelas calçadas e esquinas
com seus cartazes de homeless e war veteran
São rodeados por imensos edifícios
enquanto King Kong sorri do alto do Empire State.


Eu tinha tudo pra não gostar dos Estados Unidos.
A águia de rapina é uma máquina de dominação e de dor universal:
a tragédia do WTC, o terror de Long Islands, Donald Trump, o racismo, os imensos carros e os imensos refrigerantes, a frieza protestante, a guerra imperialista
o café aguado do Starbucks


Mas há a multidão, que vem de todos os lugares e sabe todas as coisas.
Me apresentaram outra dimensão, falaram diversas línguas e rasgaram a vida cotidiana:
o jazz no porão, o basquete e o espetáculo, um pint de IPA, os imensos arranha céus e o charme do metrô, o Central Park e o dinossauro do Museu de História Natural.
A incrível arte de hipnotizar as luzes: “start spreading the news…”

terça-feira, 19 de abril de 2016

Rato escroto rastejante

quis escrever sobre o golpe
a câmara, o cunha e o bolsonaro
mas meu dicionário foi furtado
e restou apenas a palavra rato

depois de muito me esforçar
lembrei de outra palavra, adjetivo
palavra que detesto e nunca uso:
escroto, fisiológico xingamento

e de mais um advérbio, o último
que fala da postura e moral
mas também descreve a forma
de todos os golpistas: rastejante

era pra ser poema sobre o congresso
com as três palavras que lembro
rato escroto rastejante
mas só consegui passar raiva

pensei então em inverter as coisas
escrever sobre o pouco conhecido
apenas rato escroto rastejante
Mas saiu apenas o fato: é golpe

e então troquei a pena pelo rifle

quinta-feira, 24 de março de 2016

Amor de busão

O calor da tarde periférica
derrete minha alma em cheiros de rio e de fumaça
imensos cheiros de gente apertada na condução
de gente apertada em casas e vontades apertadas

A noite escura da quebrada
congela meus sentidos na névoa que exalo ao falar
na névoa que recobre o horizonte e meu amor
que persigo entre vielas, escadas e becos, sólitário.

Meu lamento cruza
A radial e as marginais, zona leste e zona sul,
entre estações cheias, trens lotados, a lotação,
e choro baixinho no banco da longa espera
amor inviável, distante, como transporte público em SP.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

SÓ POR TI POSSO SER

seu corpo está escondido nas sombras dos arcos da Lapa
nas minhas memórias mais profundas sublimes sacanas
minha traição é da profundidade do big bang
por isso me derreto em lágrimas sob os braços de cristo
e chamo teu nome em muitas línguas que desconheço

aguardo seu retorno como um morcego que persegue um eco
sua distância pesa-me como uma falta inexplicável
minhas faltas me consomem como um verme na carne podre
(e sou eu mesmo o verme e a carne)
e só consigo vagar como um zumbi entre bêbados

antes de dormir deliro e te construo nos meus detalhes
tormento que é o peso que aciona a lâmina da guilhotina
movimenta a máquina da loucura que transpõe os limites
conduz aos pântanos do paraíso, retira-me do meu animal
secreta uma substância pura de amor.


só por ti posso ser

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

SEM SENTIDO

Poesia é imagem, ilusionismo, mesmerismo
Palavras para algo que a palavra não alcança
Para revelar o que não se vê, o fantástico
Poesia não tem serventia para o óbvio

O capitalismo não faz sentido, para ele não há
poesia

A tragédia em Mariana, o mar de lama e lucros
Os atentados em Paris e os caças franceses
o pequeno menino turco nas areias da Europa
os mortos pela Polícia Militar e as mães em pranto

O capitalismo não faz poesia, para ele não há

sentido

sábado, 14 de novembro de 2015

Papai

Maior poema
Única palavra
Primeira vez:
Papai!
E chorou
Camões, Pessoa, Drummond.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

A PM tem que acabar

Pequenino e brilhante, caminhava a criança
pelas ruas estreitas do complexo, de barro
Ia comprar bolinhas e sonhos na venda
moedas que mal cabiam na mãozinha

Sua fragilidade singela, seu futuro e seus pais
Tudo estraçalhado pela bala do fuzil da PM
Profanando toda a pureza em sangue
infestação de vermes, carne apodrecida, a morte

A poesia se afoga em uma gosma asquerosa
Hecatombe onde nada mais resta ou resiste
Só os escombros de edifícios e construções
e as lágrimas da mãe que chora desesperada.

O poeta também chora as crianças assassinadas
imigrantes, faveladas, negros e todos que clamam
Lamenta sua incapacidade, sua pequenez
A miséria de ser apenas um simples homem

enquanto uma chuva de pequenos cacos desaba
Os vidros e espelhos de nosso mundo se estilhaçam
cortando pele e convicções, sangrando o globo ocular

E o cheiro de tudo que sobra é azedo e desconfortável.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

A CRIANÇA TURCA




















para Aylan e Galip Kurdi

Aquela criança fugia da guerra
morreu afogada na travessia.
Todas nossas crianças queridas
morreram afogadas na travessia
fugindo da guerra

Antes de sair de casa
sorria com o irmão e seu ursinho
a mãe lhe arrumou para passeio
bermudinha, camiseta, cabelo penteado
um beijinho antes de partir

Encontrou apenas desespero e morte,
(e não há pior que afogamento).
O petróleo e a geopolítica afogaram os sorrisos
dos dois irmãos com o ursinho de pelúcia
que iriam passear e encontrar papai

A humanidade morreu afogada na guerra
assassinou as crianças na travessia
de bermuda e camiseta, dormindo
acalantadas apenas pelo profundo oceano
distante de qualquer coisa de gente.


segunda-feira, 8 de junho de 2015

ARQUITETURA DA SOBREVIVÊNCIA

ou Ode ao tijolo baiano


simples barraco na periferia
paira sobre o barranco inclinado
dentro do horizonte ocre de tijolo baiano
barreira de improviso que escora
onde por de trás se habita
entre vielas, travessas, escadas
o córrego fétido rasgando o cotidiano.

na transição, contradição, esquina
encontra sua definição e forma de ser
(quem olha apenas um lado, não vê)
ali vive, enorme, muitos de amor e dor
mãos calejadas, seios, crianças diversas
existência como enfrentamento e aresta
que resiste e floresce mesmo que lodo
por de trás da barreira de tijolo baiano

e muito mais, porque o tijolo baiano traz
tal textura e composição, de suor e areia
que conforma outro tipo de realidade
mais concreta do que ossos esmagados
igualmente sublime, prenhe de esperança
que se impõe impávida no corredor estreito
contra o chão de terra, a água suja, a fome
e a mão imunda dos donos da cidade

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Metrô

To com pressa, com licença
Existência em alta frequência
Asa de beija flor, microprocessador
Corredor esquerdo da escada do metrô

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Almoço

Bolinhas dançam
Mãos hábeis do menino de rua
Assisto pelo vidro do restaurante
Isolado da rua
E enfio o garfo na boca
Cheio de arroz, carne e desigualdade
Doce de leite de sobremesa
Observado por olhos que pedem algo
                               do outro lado
                                               do vidro

Mas que não posso ouvir.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Agrido

Mastigo lentamente palavras que misturo com vidro
Ruminando uma massa disforme de sangue e ódio
Que cuspo sobre flores e amores
Incapaz de resposta outra à solidão das coisas e miséria do mundo

Agrido atendentes, amigos, paixões e desconhecidos
Com precisão de punhal e força de um viking que se afoga
Mas a ferida maior é sempre em mim que dói
A ferida enorme e incurável da impotência

Não sou Raskholnikov, nem sofro do fígado
Ataco de forma racional, científica, só para sentir algo mais
A raiva com que me responde, então, confirma minha existência
Esvazia meu ser de angústias e me liberta de mim mesmo

A sinceridade do amor sem convenções agride:

Dor da criança nascendo, que ilumina toda existência.

terça-feira, 21 de maio de 2013


Atendente brasileiro explica cardápio
Ao indiano curioso e acobreado. 
Restaurante de comida típica na Augusta
Em orquestrado desencontro global.

quarta-feira, 24 de abril de 2013


Poesia é água que estraçalha
barragens, ressacas, economias periféricas
Escorre no furo, no gargalo e na hemorragia
Mata a sede e afoga
Mágoas, náufragos, Jimi Hendrix

Prova que falar é fácil, dizer é difícil
Prova comidas exóticas, sexo bizarro
Prova, quântico, que não há provas
E muitas coisas mais, irrisórias e fantásticas
Pentelhos, filosofia, a genética e o Corinthians

Um físico falando do Big Bang a um padre
Um carola rezando pela alma de um bárbaro
Aquilo que não cabe nas palavras
Nem na cesta, no pote ou no útero
Mas dizemos mesmo assim

domingo, 9 de dezembro de 2012

Presságio


Deixaram na porta de casa um vasinho de flores, bem pequenino.
Imaginei uma fábula, estória, em que uma criança é abandonada em um cesto.
Se eu fosse apenas religioso acharia um anúncio da boa vida que virá
Como poeta e pai, conheço o fantástico que mora nos brotos e nos sonhos

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Engasgado


Escrevo porque tenho algo entalado
entre o pé e o coração, perto da alma
que não posso nem quero segurar
cujas conseqüências desconheço
e espero como um filho ou um cometa.


Tem um cheiro que parece um doce
e o peso do mais leve dos planetas
dobrando o espaço, gravidade,
na forma de um perfeito origami
inexato como uma taça de champanhe.


Esculpo palavras na lama
ressoando como arrotos de anjos
sempre que algo transborda
córrego de periferia inundada
paixão adolescente desencontrada.


Espero que alguém
ouça o trovão de meus pensamentos
como quem dorme na praia
espreitando a força do mar
abençoado pelo milagre amarelo da areia.


Então deverá,
Esboçar leve sorriso ao final da leitura
Talvez, até mesmo releia ou indique a um amigo
estranhamente comovido,
criança que vê o mar pela primeira vez

sexta-feira, 11 de maio de 2012

POLÍTICA DE TRANSPORTES


Manifestação
contra o caos no transporte em São Paulo
Interrompida
Pelo barulho
do helicóptero do dono do banco Safra

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Naufrágio


Brilhava indiferente sob as vagas
esdrúxulo corpo oscilando na baixa maré
impossível e náufraga embarcação
cheia de mistérios, como uma lenda, uma dama
um objeto de utilidade desconhecida

Que desígnio do destino atirou-lhe em tal praia, deserta que Crusoé?
Partiu-se e afundou? Sobreviveram seus tripulantes?
Alguma gaivota observou seu ocaso?

Significa algo o brilho do sol contra a aresta
do casco arrombado do convés?
Ou é apenas o poeta que busca, perdido, mais que desertos, amigo Crusoé,
na imensa ilha da vida?

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Lésbicas

para a amante de minhas mulheres

Gosto de suas curvas
                Peitos, bundas e cinturas
Gosto mesmo do encaixe
                Palmas, clavículas, odores
Mais ainda de penetrar
                Suores, sussurros, segredos
E, claro, de meter
                Bem fundo, bem forte
Meu amor e meu carinho,
                No teu útero, na tua vida.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Sinestesia


Explode o sentido das palavras
quando sorrindo me agride,
procissão solitária de encantos.
O choro se torna azul, o sol vegetariano
o céu obtuso e as mesas adocicadas.
Derreto e escorro lenta, pesadamente
seguindo a eterna corrente das coisas
e a própria poesia se desfaz
como um copo plástico ao fogo.

Amo-te como a um objeto perfeito
rigorosamente esférico e translúcido
preparado desde o Gênesis
por um matemático, um alquimista
um poeta, um louco, uma puta.
Isento de arestas, de porosidades, de falhas.
Só amor, simplesmente.