Mostrando postagens com marcador Prosa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Prosa. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 18 de junho de 2020

QUARENTENA NO MOINHO

A rua fedia a mijo e podridão. O cheiro gosmento de miséria escondia o aroma  sensual dos vírus e bactérias que infestavam a região. Enquanto atravessava a multidão de drogados e mendigos, espalhados pelas calçadas, deitados no chão, Jessica lamentava a noite mal dormida, febril e prenhe de calafrios, praguejando contra a vida. O nascer do sol estava bonito como uma hemorragia celeste. O frio da madrugada estava diminuindo, e começou a fazer calor dentro do casaco amarelo de plástico impermeável. Passou álcool nas mãos e ajeitou a máscara assim que entrou na estação de trem. Será que esse álcool que o Juninho vendeu é confiável?
Saía todos os dias do cômodo onde morava na Favela do Moinho, junto dos trens e do barulho, com a noite ainda escura e os dois filhos dormindo. Trabalhava como faxineira, prestadora de serviços, em uma empresa de limpeza de imóveis de luxo. No caminho para a estação Julio Prestes, para pegar o trem com destino à zona sul, atravessava a Praça Princesa Isabel, com aquela imensa estátua de um cavalo desfigurado, meio arrebentado. Morando em barracas improvisadas, homens e mulheres faziam suas necessidades por toda parte, e o fedor atravessa o ar como uma adaga, um cadáver. Muitos criavam pequenos animais, e em um dos cantos funcionava uma feira de produtos roubados e comidas estranhas (as possíveis).
Estava preocupada com as inspeções sanitárias no caminho para o trabalho. Se fosse diagnosticada com alguma doença, teria que ficar em casa, e daí não ganharia o dia de serviço. O salário, que já era pouco, não ia dar para o mês todo. Lavou a mão outra vez com álcool gel e se dirigiu para os bloqueios. Logo atrás das catracas, uma fila de soldados com pistolas de teste nas mãos verificavam a temperatura de todos. Qualquer variação e a pessoa seria conduzida para a quarentena - dizem que para exames e registro.
Precisava chegar no trabalho, ia se atrasar desse jeito. Seguia na fila da catraca de cabeça baixa, sem chamar a atenção. Se os guardas não reparassem nela, talvez nem fosse testada, no meio daquela multidão de máscaras e celulares. O guarda apontou o termômetro na sua cabeça, e olhou com suspense para o mostrador. Depois de um instante de agonia, mandou ela passar, todo grosseiro, como se tivesse ficado frustrado com o negativo do teste.
***
No quadro dos funcionários, sua escala de trabalho estava diferente, mas não reclamou. Afinal, pouco importa de quem é a sujeira que vai limpar. Seu irmão, Helinho, é segurança de banco, corre muito risco para ganhar pouco, e o resto da família está toda desempregada, vivendo de bico, criando pequenos animais (porcos, galinhas), vendendo o almoço para comprar a janta. Ela pelo menos tinha casa, e precisava continuar trabalhando para manter esse mínimo de dignidade. Geralmente era escalada para limpar o mesmo condomínio, onde já a conheciam e sabiam que era limpinha e honesta, mas dessa vez foi diferente. Tanto faz. O que importa é trabalhar. Se perdesse o emprego, talvez tivesse que ir morar em uma barraca, ou algo assim.
Primeiro foi escalada para limpar um endereço comercial, o que não era comum: um escritório de advocacia grande e chic. Não gostou daquele ambiente frio e liso: preferia limpar casas e apartamentos. Os advogados, a maioria jovem, muito bem vestidos e sorridentes, pouco conversavam. No grande salão no último andar de um prédio espelhado, Jéssica se preocupava em limpar as bancadas com os computadores, o espaço da máquina de café, os arredores da mesa de reunião. Um ambiente gelado, o ar condicionado no último, tudo muito sério e sóbrio. Gente importante, pensava Jéssica, enquanto esfregava os braços de frio e passava as costas das mãos no nariz que estava escorrendo. Uma janela imensa, aberta para a cidade, observava tudo pelo alto.
Naquele frio silencioso, sentiu que estava sendo vigiada, como se tivesse fazendo algo errado, ou estivesse com as calças sujas. Sem aviso, um funcionário de máscara fechada, macacão de proteção e luvas amarelas disse para Jéssica que ela teria que fazer um exame. Assustada, recuou e colocou a vassoura entre eles, se protegendo, mas foi abordada por trás por dois guardas, fortes e embrulhados em roupas laranja, que logo a dominaram e espetaram uma agulha em seu braço. Tinha mesmo notado que uma jovem advogada, de vestido preto e salto alto, fez uma cara de susto ao vê-la, mas achou que fosse só o nojo de sempre. Só pode sair da sala pra onde foi empurrada, para terminar a limpeza, quando recebeu o resultado negativo do teste.
Na parte da tarde foi para um bairro mais afastado, um condomínio de rico cheio de guardas e guaritas. A limpeza agora era em uma mansão imensa, com colunas na entrada e um enorme jardim na frente, cheio de carros grandes. Foi recebida pela governanta, uma mulher alta e de cara fechada, que usava luvas de borracha e um avental branco, além da máscara e uma certo ar de superioridade. Teresa, com alguma distância, orientou Jéssica a limpar os quartos do casal e das crianças, e avisou que os meninos estavam doentes, descansando. Jéssica ficou um pouco preocupada, mas a governanta foi firme quando disse que a limpeza tinha que ser feita, deixando claro que não queria saber de reclamação.
Subiu as escadas para limpar o quarto dos doentes, mastigando sua indignação, redobrando a atenção com todo seu medo e ódio. Que será que eles tinham? Será que era contagioso? Se ficasse doente, não poderia ir trabalhar, o seria um problemão, uma grana que não dava pra perder. Tinha um verdadeiro hospital instalado ali, e não deixou de notar a cara de preocupação das enfermeiras. Mesmo assustada, apertou sua máscara e limpou tudo com o máximo de cuidado. Observava metodicamente todos os lugares onde encostava, vigiava sua postura para não tocar no rosto, passava álcool em gel nas mãos até arder. Mas ficava sempre com a impressão que algum detalhe tinha passado despercebido, que o álcool não seria suficiente, que a máscara não era adequada. Foi embora um pouco mais cedo, com uma boa gorjeta e a recomendação de não comentar com ninguém sobre os doentes. Talvez pudesse até ser chamada outras vezes, para outro período curto de trabalho com um extra muito interessante. A governanta falava disso como uma proposta irrecusável. E era mesmo. Também era um suborno, mas podia conviver com isso.
Na volta para casa, pegou um ônibus lotado até o terminal de trem, em Santo Amaro, mais lotado ainda. Ficou com medo da aglomeração. Desceu na estação Júlio Prestes, depois de muitas baldeações, passou álcool nas mãos, apertou sua bolsa contra o corpo e saiu marchando pela rua. Já durante o aperto da viagem começou a se sentir mal, como se o incômodo que a impediu de dormir à noite tivesse retornado com mais força. Devia procurar um médico, mas não tinha tempo ou dinheiro.
Jéssica foi piorando. A febre não cedeu e a tosse só aumentou, e agora estava com falta de ar e dor no peito. Pegou um adiantamento no trabalho e resolveu que não dava mais para esperar. Na praça tinha uma feira onde era vendido de tudo, inclusive consultas médicas e remédios para desesperados. O serviço, mesmo ilegal, era muito procurado, e, apesar de ser pouco confiável, era caro. Jéssica foi atendida por um médico de cabelos brancos, depois de muito tempo de espera e negociação. O consultório de Isaque era um par de cadeiras com uma maca ao fundo, incomodamente à mostra de quem quer que passasse pela rua. Entrevistou Jéssica com uma voz serena que brotava do fundo de sua de sua pele negra, abafada pela máscara. Perguntou dos sintomas e pediu para medir a temperatura:
- Sinto dizer, mas tem um novo vírus por aí - disse o médico, calmamente, passando a mão devagar na testa - Como sabe, a política é sempre abafar, pra evitar o pânico e manter as pessoas trabalhando. Mas dessa vez é perigoso mesmo.
- Um novo vírus? Como assim? Eu estou doente? - perguntou Jéssica, falando mais alto e desafinando um pouco.
- Aparentemente. Não dá pra saber com exatidão, porque não tem teste disponível, mas tudo indica que sim - disse o médico com a mesma calma fingida, e seguiu explicando - É um vírus que veio da Europa, coisa de gente grã fina. Como você trabalha com esse povo, é bem possível que tenha sido infectada. Os sintomas são os mesmos, e sua febre está aumentando, junto da infecção no pulmão.
- Mas eu não posso ficar doente. Preciso sustentar a minha casa. Se eu ficar doente, não vou poder trabalhar, e vou ser demitida - lamentava Jéssica, com os olhos esbugalhados e as mãos se agitando - O que aconteceu, como será que eu peguei? Por que essa mais essa desgraça agora, meu deus?
- Minha senhora, ficar doente não é uma escolha - disse o médico em um tom firme - Também não dá pra saber como pegou, nem sei se isso interessa muito. Agora, não tem outra coisa pra fazer a não se tratar, descansar, comer minimamente bem.
- Eu não posso fazer nada disso. Simplesmente não posso. Não posso perder meu emprego, e muito menos posso ficar em casa, doente, descansando. Ai, moço, não sei o que fazer - disse Jéssica enquanto escapavam algumas lágrimas.
- Eu acho que consigo ajudar você a ir trabalhar - falou como se suspirasse - Te dar um antitérmico e um interferon. Por um pequeno valor a mais na consulta, claro. Mas, pelo que me disse, não vejo alternativa para você.
- Isso vai me curar, doutor?
- Não vai curar nada. Nem remédio para o novo vírus existe ainda - disse Isaque com uma honestidade impactante - Ninguém nem sabe muito bem que vírus é esse ou como é que a gente pode tratar essa coisa. Mas dá para  atacar os sintomas. Você vai conseguir ir trabalhar, pelo menos por um tempo. E vai parecer melhor, que é mais importante. E a gente torce pra você não piorar muito, principalmente quando estiver lá fora - falou enquanto apertava os olhos já cansados, já preenchendo uma receita e pegando um remédio em uma caixa atrás da sua cadeira.
Saiu da consulta ainda pior, carregando a preocupação e, agora, também a doença. Precisava conseguir ir trabalhar pelo menos mais alguns dias, nessa casa nova que pagava mais (apesar dos perigos), pra fazer um dinheiro, se preparar para a hora mais difícil que viria logo. Tinha conseguido atravessar as últimas epidemias. Depois da fase do medo, muita gente ficaria doente, as coisas iam apertar, e o controle do governo ia espremer a comunidade, igual bagaço de laranja. Precisava de uma reserva de dinheiro e de mantimentos, precisava estar pronta para tudo.
Lembrou dos seus filhos, que deviam estar em casa, mesmo contra todos os seus pedidos para que ficassem na casa da avó. Mesmo preocupada, tinha o coração sempre aquecido por aqueles meninos. Que Deus abençoe. E agora, que sabia que estava doente, o que fazer? Os meninos não podem pegar essa praga, não ia suportar infectar os próprios filhos. Podia até ouvir a voz de Esaú dizendo que não ia dar nada, apoiado na soleira da porta, fumando, e Jacó reclamando do outro lado, de cabeça baixa enquanto ajeitava a cama para a mãe descansar. Não tinha o que fazer, pensava enquanto caminhava entre as barracas na praça de volta para casa.
***
Conseguiu passar bem a semana com os remédios receitados por Isaque. Ele não vale nada, mas é bom no que faz. Mas, na segunda-feira, quase não conseguiu levantar da cama. Seu corpo estava quente e amolecido, sua cabeça estava pesada e congestionada. Estava enjoada, com dor de barriga, muita tosse e falta de ar. Só que precisava ir trabalhar. O chefe já tinha avisado que quem faltasse ia ser mandado embora. Não podia perder esse emprego de jeito nenhum. Tinha que conseguir, pelo menos até que fosse decretado o isolamento total. Só mais um pouco.
Acordou cedo no outro dia, e os meninos ainda estavam dormindo. Comeu algumas bolachas de água e sal, acompanhadas de um preparado à base de leite e café. Lavou as mãos e o rosto, enxaguou a boca e tomou uma dose cavalar de remédios - antitérmico, antiviral, analgésico e até um ansiolítico. Será que prestam esses remédios que o Juninho vende? Já tinha ficado muito doente nas outras pandemias, mas sobreviveu. Beto, que morava com ela e ajudava na casa, morreu faz quatro anos, na epidemia de sarampo. Foi difícil. Mas doeu mesmo quando morreu seu primeiro filho, doente, e o segundo, de fome, durante o último isolamento total. Não podia deixar mais isso acontecer. Precisava ir trabalhar, custe o que custar.
Ficou meio dopada com os remédios todos que tomou, mas pelo menos conseguiu sair de casa. Afinal, é pra isso que os remédios servem, te colocar em pé para ir trabalhar. Quando chegou na estação Julio Prestes, estava com a visão turva e um pouco tonta. Nem viu os guardas atrás das catracas, mas lembrou que eles existiam e aprumou o corpo, ajeitando a máscara e olhando para frente, com firmeza. Não podia ser pega, de jeito nenhum. Assim que passou a linha dos bloqueios, deu uma bela tropeçada, arruinando sua discrição e caindo sobre as pessoas que estavam à sua frente.
Os guardas da estação, rinocerontes de uniforme negro, levantaram seus escudos e se protegeram do movimento da massa de pessoas se deslocando. Com sua queda, Jéssica acabou empurrando outras pessoas na sua frente na fila, que caíram sobre os guardas, causando um pequeno tumulto. A fila continuou andando, e Jéssica seguiu junto. Nem percebeu que passou pelos guardas sem ser examinada, enquanto a fila se reorganizava e os guardas retomavam a sua posição, empurrando as pessoas e apontando os termômetros na cara delas. Jéssica entrou no trem e passou álcool nas mãos. Sua tosse ecoava na tosse de outras pessoas doentes dentro do vagão. Nas telas de anúncios, avisos sobre higiene pessoal e cuidados com o vírus.
Como o escritório de advocacia estava fechado, naquela manhã Jéssica foi direto para a mansão. A situação por lá estava cada vez pior. O cheiro de doença atravessava as colunas gregas e impregnava o jardim cheio de carros importados e flores ressecadas. A governanta não atendia mais a porta, porque também tinha ficado doente. O pai até tentou cuidar das coisas, com todos os outros membros da família de cama, mas ele também acabou ficando mal recentemente. A casa não estava cercada pelas forças da vigilância sanitária, como acontecia onde ela morava. Entrou e dirigiu-se para o quarto, que ela limpava com cada vez mais cuidado e medo.
O cheiro de carne podre invadia o ambiente e impregnou na sua máscara. O corpo do irmão falecido, que não podia ser removido sem avisar a vigilância sanitária, já estava em avançada decomposição. Podre mesmo, cheio de bicho, se desfazendo, fedendo e lembrando a todos da doença. Ao seu lado, os dois irmãos, de fraldas e acamados, com cuidados precários, pioraram muito desde que a governanta se afastou. Além das macas, e de um conjunto de aparelhos médicos, o quarto estava uma bagunça, muito sujo: uma pilha de roupa usada em cima de uma cadeira, as fraldas nojentas amontoadas no canto, transbordando do lixo, e até marcas de secreções espalhadas pelas paredes. A janela, fechada para diminuir o fedor na vizinhança, compactava o ar irrespirável, cáustico, deixando Jéssica com vontade de vomitar.
Ajudou a trocar os dois meninos, com muita dificuldade, e cobriu melhor o irmão morto. Nessa hora, ouviu o pai das crianças gritando do outro quarto, pedindo ajuda. Jessica demorou a atender, achando que eram os pedidos folgados de sempre. O velho gritou mais uma vez, arranjando forças não sei da onde. A essa altura, já não havia mais ninguém trabalhando na casa, nenhuma enfermeira ou cuidadora fixa. Jéssica atravessou o corredor e entrou no quarto do casal. A senhora, muito magra, com os olhos pulando das órbitas, espumava sangue e se debatia em uma violenta convulsão. O velho estava desesperado e não sabia o que fazer, ainda mais sem funcionários. Jéssica também não sabia o que fazer, e fugiu desesperada. Saiu correndo, com a mão na máscara, como se fosse tampar a doença, com a qual tinha convivido de perto por tanto tempo. Voltou pra casa, chorando e tossindo.
***
No caminho de volta, muito menos gente que de costume. Desceu na estação Julio Prestes, atravessou com medo a concentração de usuários de drogas - o fluxo - que estava por ali aqueles dias. Como será que esse povo sobrevive nessas condições? Será que não ficam doentes, que adquiriram alguma espécie de mutação, algum super poder ao contrário? Sentia-se cada vez mais doente, tossindo muito, com febre e moleza, caminhando de volta para casa. Os comércios fechados, o transporte vazio, o barulho dos passarinhos dava uma estranha sensação de que o mundo tinha parado.
No Moinho não tinha quarentena. O sol quente iluminava as ruas e vielas cheias de gente que ia e voltava do trabalho - faxineiras, seguranças, enfermeiras, garis e lixeiros, pequenos traficantes. Na frente dos barracos, humildes e apertados, as pessoas se reuniam para conversar sobre a nova doença que estava chegando. Crianças passavam correndo sobre as poças d’água, cachorros mexiam no lixo, e o boteco estava cheio desde antes da hora do almoço. Ficou preocupada com os filhos, que estavam há dias sem trabalhar, e imaginava o que podiam estar fazendo.
O caminho também estava mais sujo e descuidado. O lixo acumulado na esquina, próxima da entrada da favela, bem junto da saída do viaduto, se espalhava ocupando a calçada e a rua. Jessica logo percebeu que estava faltando água quando viu a imensa fila se formando ao lado do muro da escola. A raiva subiu das entranhas. Teria que voltar até ali, de lata na mão, e camelar com a água de volta para casa, depois de tudo o que tinha passado naquele dia infernal. Pelas ruas, além do lixo, muitas ambulâncias, policiais, agentes de saúde. Certamente, alguma coisa estava para acontecer, mas só pensava em chegar em casa e descansar.
Torcia, agora, para que pelo menos tivesse luz. Seu barraco puxava a energia do poste da rua, assim como seus vizinhos. Pela movimentação nas portas dos barracos, gente de toda sorte que não podia ficar em casa, logo notou que também ficaria no escuro. O efeito dos remédios estava passando, e sentia cada vez mais pior. Não teria forças para buscar água, nem que quisesse. Deitou na cama, torcendo para a bateria do celular durar até o despertador tocar no outro dia. E para que conseguisse sobreviver àquela noite.
***
No outro dia, a favela todo amanheceu cercada. A luz do giroflex e o barulho das sirenes anunciavam o toque de recolher. As forças de segurança tinham fechado tudo, ninguém entra e ninguém sai do Moinho. A polícia sanitária foi acionada, com seus uniformes de astronauta e caminhões prateados. Para sair é preciso apresentar alguma justificativa: uma receita médica, a carteira de trabalho, alguma autorização judicial. Quem fosse pego pra fora sem justificativa seria preso. Dizem que seriam usados nos testes para as novas vacinas. Jéssica já tinha visto isso em outros anos, e sabia que as coisas ainda iam ficar muito piores.
A manhã ainda estava fria quando saiu para ir à farmácia. Tinha dormido mal, mas fingia estar melhor. Não queria deixar os meninos preocupados. No caminho, dois rapazes com idade para serem seus filhos passaram em uma moto. Sem capacete, foram parados pela polícia sanitária e obrigados a voltar, não sem um belo de um esculacho. Uma jovem guarda, com megafone nas mão, gritava para as pessoas avisando, com a simpatia que conseguia, do bloqueio que fechava o bairro. O comandante da operação explicava para um grupo de senhoras que pareciam querer ir à igreja, com uma estranha tranquilidade no meio daquele caos, que era melhor pedir à Deus de casa mesmo, enquanto elas levantavam as mãos para o céu. 
Na linha de contenção, uma cerca de cavaletes e guardas armados que isolava o bairro do resto do mundo, disse que precisava comprar remédios, mostrando sua receita. O guarda nem deu atenção pra ela, só mandou se afastar balançando a mão, apontando para o lado. Em longas filas, pessoas pretas e pardas pedia autorização para sair, olhando para baixo enquanto eram verificados pela polícia sanitária. Jéssica viu os guardas analisando os documentos de uma senhora grisalha, revistando um jovem magro na outra fila, e mexendo, mais à frente, com a moça bonita vestida de branco, que deveria ser enfermeira ou babá. Alguns pedintes esmolavam por ali mesmo, mas ninguém ajudava. Depois de aguardar um tempo na fila, resolveu voltar para casa, quando notou que quase ninguém estava conseguindo sair.
Ficou puta, e voltou para casa reclamando, alternando resmungos e gritos de raiva. “Essa podridão dessa doença não veio daqui. E agora a gente que tem que se foder, com essa merda de bloqueio. Lá no outro lado os ricos não estão trancados, vigiados, com uma coleira no pescoço. Tenho certeza que foi um porra desses que trouxe essa sujeira de vírus para cá. Eu lembro do médico falando, e vi, com esses olhos que a terra há de comer, a situação dos doentes daquela mansão”.
Tinha que passar no mercado, mas quase desistiu quando viu o tamanho da fila. Só entrou porque não tinha outra alternativa: precisava comprar um pouco de comida e uns produtos de limpeza, pelo menos. Do lado de dentro, uma pequena guerra civil estava sendo travada, entre senhoras que lutavam pelos vidros de desinfetante e álcool em gel, os seguranças que queriam evitar os pequenos e inevitáveis furtos e os jovens preocupados com seu estoque de papel higiênico. O dono, na porta, observava tudo com os braços cruzados e a cara fechada. Jéssica conseguiu um pouco de arroz e frango, ovos e água sanitária, por um preço bem maior que na semana passada.
A favela tinha virado um caldeirão, onde fervia toda aquela pobreza no caldo do isolamento total. Uma ambulância recolhia um corpo, que saía carregado pelos familiares, enrolado em um lençol. Quanto tempo teria ficado dentro da casa? Em breve, corpos estariam empilhados pelas ruas. Finalmente chegou no seu barraco, onde estavam seus dois meninos deitados na cama, assistindo TV, com cara de assustados, passarinhos querendo a asa da mãe. O telejornal falava da epidemia e do fechamento de algumas áreas da cidade. Muita desgraça passando na tela, mas pelo menos a luz tinha voltado.
- Oi mãe! Nossa, que bom que a senhora chegou. A gente estava ficando preocupado - disse o jovem Jacó,  um rapaz alto e magro, com cara de assustado - Já fecharam tudo, né?
- E aí, mãe, beleza? Tá ficando feia a coisa, né? - disse Jacó, irmão gêmeo de Esaú, com um sorriso largo na sua cara magra.
- Está tudo bem por aqui? - disse Jéssica, preocupada, levantando as mãos  - Não se aproximem de mim, espera aí. Jacó, pega a água sanitária - disse Jéssica, tirando a roupa e colocando tudo em um saco, que Esaú colocou do lado de fora..
- Mãe, relaxa - falou Esaú - Todo mundo aqui vai pegar essa merda. Não adianta passar esse álcool falsificado, tomar todos esses cuidados, se a gente mora tudo amontoado, igual galinha na granja.
- Não fala assim - disse Jacó, fazendo o sinal da cruz, como tinha aprendido com a avó - Já está todo mundo nervoso, não fica botando pilha.
- Vocês vivem em outro mundo - disse Esaú contrariado.
- Pode até ser - disse Jacó - Mas o que importa agora é que mamãe chegou e está tudo bem com ela - disse, se voltando para a mãe.
- Meninos, parem de brigar - disse Jéssica, confortando os dois com sua voz - Vai ficar tudo bem. Agora, me contem. Tem alguma novidade que preste do noticiário?
- Só desgraça - disse Esaú, praguejando - Vai ter toque de recolher, mas só em alguns pontos da cidade. Deve ser para os ricos poderem movimentar a economia, enquanto os pobres vão ficar presos. A não ser aqueles que trabalham para permitir que os ricos fiquem em casa.
- Como a sua mãe, por exemplo, não é, meu filho? - disse Jéssica, passando a mão na cabeça de Esaú - Lembre-se que alguém tem que colocar comida na mesa.
- Tá bem, mãe - prosseguiu Esaú, respondendo com algum desdém - O governo anunciou também que os benefícios vão ser mais restritos. Não sei se a gente vai conseguir dessa vez.
- Se a gente não está entre os que vão receber, morando em um barraco e com uma renda que mal dá pra comer direito, quem então vai ter direito? - perguntava Jacó em tom de choro.
- Meus filhos, vamos esquecer disso por enquanto. Vamos ficar um pouco juntos, quietos, abraçados aqui embaixo da coberta. É a melhor coisa que a gente pode fazer agora - falou a mãe, com um gosto de sangue na boca.

domingo, 5 de março de 2017

O LADRÃO E OS ASSASSINOS

500 mil no bloco dá Daniela Mercury. Na Augusta o refugo. Saio de casa e vejo a confusão, correm atrás de um adolescente negro. Encurralam ele junto a grade de casa, querem bater, querem arrastar, e ele se agarra com toda força. Entro no meio dos marmanjos, empurro e grito.

São ambulantes que alegam ser ladrão, que aquele rapaz e outros tinham roubado o carnaval todo e agredido outros vendedores. Só grito: não vai matar o moleque, chama a polícia. No meio dos agressores percebo um playboy que estava passando e ficou interessado em linchar ladrão.

Pedrinho assustado no portão, falo pra Nathalia ligar 190 e segurar ele. Dois ou três deles se voltam pra mim, me acusando de passar pano pra ladrão. Insisto, firme, em chamar a polícia, ameaçando os agressores. Um deles se volta pra mim pra me intimidar, me peitando agressivamente. Me afasto, com algum medo e vejo Nathalia dizer pra eles: olha a criança, tá assustando o menino.

Olho para o Pedro e ele está chorando. Insisto para Nathalia chamar a polícia e cuidar dele. Graças à intervenção dela o que brigava comigo se acalma. Falo com ele que não pode matar. O playboy fala que não adianta chamar a polícia. Um outro segue gritando que eu estava passando pano pra ladrão. Mas agora já nos falávamos, aos gritos, sobre justiça e justiçamento, ninguém mais tentava bater em ninguém. Pedro está pra dentro e o que me intimidou agora pede desculpas para a Nathalia.

Quando conseguem desgrudar o adolescente da grade, tentar arrastar ele para outro lugar. Na hora vejo a polícia descendo a rua e me dirijo a eles. Falo, acelerado, que estão para linchar o moleque. O PM me retruca, perguntando se eu sei o motivo, como quem diz para não defender bandido. Respondo decidido: pegaram porque é ladrão, mas não tem lei? Vão matar o moleque! Pra que existe polícia, juiz?

Os policiais chegam e a situação acalma. Os agressores, como se estivessem certos, saem andando, nem precisam ser liberados, e o rapaz é detido, “para averiguação”. Ora, independente que tenha feito, naquele momento era vítima, mas preto que era não foi tratado assim. Ainda falei com os policiais, que insistiram na tese da defesa do bandido, me perguntando: e se fosse com o senhor? Nem digo ao policial, negro como o menino, o absurdo da situação, mas me acalmo quando dizem: não é santinho, mas tá aqui inteiro, pode ir tranquilo.

Na confusão, Nathalia trancou o Pedro para dentro e nos acalmamos falando pra ele procurar a chave na bolsa da mãe, tarefa em geral inglória. Quando saem, coloco os dois no táxi, ainda meio confuso com tudo que aconteceu. Ligo para ela depois e ela me conta que ele nos agradeceu porque não deixamos o adolescente apanhar.



quarta-feira, 12 de outubro de 2016

BIANCA

O entregador chegou na porta do prédio e entrou sem mais. Um corredor ladeado por armários da instalação elétrica, uma escada com meia dúzia de degraus e no fundo uma senhora oriental, sisuda e de cabeça raspada, sentada em um banquinho com uma pequena mesa à frente. Não tinha interfone no prédio e perguntou para ela da pessoa que procurava: nome completo e número do apartamento. A senhora olhou com descaso e um certo estranhamento, e com um movimento de cabeça indicou, com os olhos, um cartaz na parede de trás, onde oferecia-se massagem erótica, garotas e acompanhantes, e outras putarias mais. Tudo baratinho.


Perguntou novamente da moça que procurava, agora fazendo cara de quem já entendeu o que acontecia, mas que precisava falar com ela mesmo assim. Emendou a pergunta, repetindo o apartamento, pra confirmar se a moça trabalhava ali ou se o apartamento que procurava era casa de família. Outra vez a resposta, com os olhos, já dizia que não estava entendendo nada. Meu filho, aqui só tem puta. Não tem nenhuma família aqui não, tudo vagabunda, explicou com uma delicadeza de avó. Seguiu plantado em frente à senhora, reafirmando, com os olhos, que queria falar com a moça, sendo ela puta ou o que fosse. A senhora entendeu, levantou, e mostrou a escada, alertando o elevador estar quebrado e o apartamento ser no quinto andar. Tudo com uma má vontade incrível.


Subiu as escadas, com a senhora à frente, e entre um cliente e outro que descia, via com o rabo dos olhos os corredores de apartamentos, todos eles com alguma coisa pendurada na porta, alguns com a porta aberta. As meninas olhavam e convidavam, com o corpo e com os dedos, em um sussurro forçado que se pretendia sexy. Algumas moças realmente eram belas, outras interessantes, mas a maioria a vida tinha estragado demais. E era muito degrau para conseguir se preocupar com convite de puta.


Chegou cansado ao quinto andar, mas não queria demonstrar que estava cansado, muito menos que estava mais cansado do que a senhora que o conduzia, de quem na verdade teve é que correr atrás. Enquanto recuperava o ar, a senhora já batia na porta e chamava pelo nome da pessoa que o entregador procurava. Foi ele quem percebeu o bilhete na porta dizendo: estamos atendendo no apartamento tal, no terceiro andar. Apontou o bilhete para a senhora que leu, resmungou algo e se colocou descendo a escada. E ele foi correndo atrás dela, sem que ela precisasse olhar.


Já próximo do corredor dos apartamentos do terceiro andar começou a ouvir a bagunça: voz fina de mulher gritando fino, voz grossa de homem dando ordem, e a voz aveludada do cantor brega no rádio de caixas já meio afônicas e rachadas. Nem precisou perguntar onde era, já viu a festa pela porta entreaberta e foi se encaminhando, sempre atrás da senhora que comandava os caminhos do edifício.


Mesmo a porta não estando exatamente fechada, e estar uma balbúrdia dentro do apartamento, a senhora seguiu o mesmo protocolo da antes batendo na porta e chamando pelo nome a moça que estava sendo procurada. Uma das primas abriu a porta e lá dentro era um filme de pornochanchada, com mulheres de todos os jeitos de peitos de fora e homens de cueca ou com o pau para fora mesmo. Eram todos negros, e percebeu que eram africanos pela língua estranha que falavam. O ambiente estava preenchido de fumaça de cigarro e com a música alta que ressoava pelos copos cheios e latas com bitucas.


O entregador se apresentou e perguntou pela moça. Explicou que era importante, que tinha a ver com o filho dela. A mulherada se comoveu, veio mais umas duas, de peito de fora mesmo, ver se podiam ajudar. Os caras foram tranquilos também, mesmo não entendendo bem o que se passava. Disseram se conhecer apenas pelo nome de guerra, e mesmo querendo ajudar tinham medo de se envolver em problemas dos outros. Mas logo identificaram a pessoa, e afirmaram com a convicção de quem não tem nada com isso que ela não trabalhava mais naquele local.


Qual o seu nome?, perguntou o entregador. Quis saber porque, e ficou muito, mas muito desconfiada. Já não bastava ter dado a informação, e ter dito que mal conhecia e que não sabia onde se escondia? O entregador sorriu, fez cara de sonso, e falou que precisava colocar o nome de quem atendeu, de quem deu a informação. Pediu por favor, com os olhos. Uma menina de trás, bonitinha, sorriu pra ele. Pode por Bianca. Ele agradeceu, sorrindo e olhando. Somos todas Bianca por aqui, todas nós do prédio.

(Guardou bem o número pra voltar depois, no almoço ou depois do trampo. Ficou apaixonado pelo sorriso e pelos olhos da Bianca, daquela Bianca tão bonitinha.)



terça-feira, 31 de março de 2015

SORRISO É ALEGRIA?

Sorriem os cães, para a carniça que chora
(ditado popular do Laos)

Gritei por José Faustino em humilde casa no difícil Jardim Keralux. Atendeu uma senhora que botou a cabeça na janela e, quando eu disse ser do fórum, prontamente dirigiu-se para a porta e veio, em uma postura serena, com a suave curiosidade de quem tem um estranho batendo em sua porta. Uma pequena ansiedade e nervosismo, entremeado pelo sorriso cortês que manda o decoro, típico da surpresa, de algum objeto escondido que irá se revelar.

- Seu Faustino, José Faustino, é aqui?

Disse que não era, mas de modo incerto, meio inseguro, meio seco. Esboçou um leve sorriso, e desconfiei do possível sinal de mentira. Perguntei seu nome, tudo bem? e disse bom dia. Insisti:

- Ele mora aqui, ou morava? A senhora conhece ele?

- O que aconteceu?

- Sou do fórum, preciso entregar um documento pra ele, de um processo.

- Como assim? Posso ver esse papel? O que que é?

- É pra ele. A senhora conhece? É um processo da fulana contra ele...

- Ele não mora mais aqui. Ela sabe disso. Porque que ela coloca o endereço aqui de casa, se ela sabe que ele não mora mais aqui? Quem deu esse endereço? Eu não tenho mais nada a ver com isso.

- Mas a senhora conhece ou não ele? Não é nada não, é só uma dívida, cobrança na justiça.

Aproximou-se do portão, apoiou na grade, olhou nos meus olhos e disse, calmamente, com um tranquilo sorriso no rosto, o mesmo sorriso que estava impregnado em seu rosto quando abriu a porta, quando disse não conhecê-lo. Um sorriso que era um alento e uma armadura:

- É um filho da puta, um desgraçado. Morou aqui um tempo, estuprou minhas filhas e acabou com a minha vida... (pausa angustiante) O senhor quer deixar alguma coisa aqui, quer que eu assine algo?

Disse, e não parou de sorrir um instante, enquanto me mandava embora com Deus.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O monge na cidade

O monge limpou o chão, arrumou suas vestes e sentou-se, em posição de meditação, e ali ficou por muitos milhares de anos. Permaneceu sentado, imóvel, sobre a mesma pedra na beirada do vale do rio grande, enquanto crescia em seu redor a enormidade da cidade, multiplicadora de pessoas e objetos despossuídos de sentido ou alma. Quanto maior a multidão solitária que o cercava, mais indistinto tornava-se, vibrando em tal frequência que seus limites físicos e espirituais atenuaram-se, tal que dissolvia sua presença como sal de frutas no copo d´água. Nesse instante, compreendeu todas as coisas do mundo, e sabia do futuro de todos os seres, mesmo dos que ainda não nasceram, ainda que nada pudesse dizer, pois a única coisa que esquecera foi a capacidade de falar, o que é diferente do domínio da linguagem. Voltava-se para dentro, como um enorme lago onde mergulhasse, e dali podia ver com mais detalhes o rastro dos movimentos das pessoas, o que havia de escondido em cada olhar, as meias palavras e as perversões mais íntimas. E ainda assim era o mesmo monge, mesmo que muito tempo se passasse, mesmo que em meio à muita gente se misturasse. E era esse mesmo monge quem observava a cidade que subia e os homens que passavam, mesmo que ele fosse apenas um outro entre tantos.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Busca e apreensão da menor Kauany

               "O MM. Juiz de direito da vara de família manda qualquer oficial de justiça que cumpra a busca e apreensão da menor ..."

Os demônios tão querendo alguma coisa, tão falando de mim, falando que vão tomar a minha filha, que vão me mandar pro hospício. E essa menina, aqui em casa, todo mundo diz que tá doente, que tem essa tal síndrome de Down. Eu só queria que deixassem a gente em paz, que Jesus vai salvar a gente. Aí, tão na porta de novo, me chamando...

Dona Maria, tem uma compra para a senhora aqui fora. É mesmo Dona Maria, abre a porta. Tem doação da Igreja para a senhora. Jesus mandou não abrir a porta hoje. Tá muito escuro, sempre está. Lembro quando ela abriu a porta, e eu ia naquele lugar cheio de crianças. Gostava mesmo quando saí na rua. Lá fora é  claro, cheiroso. Hoje ela tá ruim mesmo pastor, não quer nem abrir a porta. Não posso ficar mais minha filha, mas estou torcendo para que dê tudo certo. Deus vai interceder por ela.

Passa pela janela que é pouca compra, não posso abrir a porta. Aquele moço que a mãe chama de pastor veio aqui. Gosto dele, a mãe abre a porta. Será que está ali fora ainda? Acho que dormi e acordei de novo. Não, não quero abrir aporta. Eu odeio você. Eu não quero essa porcaria de queijo. Para, para de gritar mãe, que eu fico com medo. E ainda tá escuro, depois que eu abri os olhos. Ela não quer mesmo abrir, não adianta. Acho melhor esperar o oficial de justiça chegar, daí a gente vê o que faz. Cadê minha filha? Jesus disse pra não abrir a porta hoje para ninguém.

Chega pra cá minha filha. Tá com fome? Vou fritar frango e linguiça. E botar água para ferver. Vou fazer mandioquinha. Eu gosto de mandioquinha. Jesus que mandou. É meu pai que traz, entrega pela janela. O moço que a mãe chama de pastor também traz comida pra gente. Gostei quando vem minha outra mãe, que traz brinquedo. Meu pai e minha outra mãe moram em outro lugar, e minha mãe não gosta. Não gosta também de sair de casa, nem de brincar. Vamos esperar mais um pouco, que o oficial deve estar chegando. Vamos, vamos sair todos daqui de cima.

Minha filha, estão olhando pra gente. Sai daqui, sai, sai! Tem um monte de gente lá fora, será que vieram me visitar, me levar pra passear? São muitos demônios lá fora, vão pegar a gente. Se protege, sai de perto dessa janela menina, sai! Lá fora tá claro, dá pra correr. Não gosto de sempre só ficar aqui. É escuro, e tem bichinhos. Os bichinhos são chatos, não gosto dos bichinhos. Os demônios que estão virando bichinhos. Jesus mandou a porta ficar fechada. Bom dia, oficial. E aí, como vamos fazer? Eu? Eu não sei não. Achei que vocês do CAPS é que iam conduzir as coisas.

A senhora é parente dela? E ela não quer atender a senhora também? Nem ninguém mais, né? Bom dia seu Antônio. E aí, como estão as coisas? Sim, fique tranquilo, que vai dar tudo certo. Mas como ela está? Doente, né? Mas ela é brava, briga com os outros? Mãe, porque tem tanta gente lá fora? Tô vendo pelo buraquinho. Foram eles que trouxeram os bichinhos? Dona Maria, sou eu de novo. A senhora não vem aqui falar comigo? Não vou abrir a porta, eu não posso. Não, não poso! Saí daqui que você é amaldiçoado. Sai, sai!

Qual o plano então? Vamos ficar bem quietinhas, ehn?! Os demônios, essa gente toda lá fora. Vamos derrubar a porta e amarrar a mãe? Beleza, mas vocês tem certeza? E a menina, quem vai pegar? Tem que tomar cuidado que tem a o sofá bem perto da porta, pode cair em cima. Água fervendo é foda, ehn? Ela já tinha ameaçado de jogar outras vezes? Acho melhor a gente esperar mais ajuda, talvez chamar a polícia... Ai, eu queria falar com minha outra mãe. Amaldiçoados, estão querendo sujar a minha casa, entrar pelos buracos. Os bichinhos são demônios? Todo mundo lá fora é demônio. Jesus me falou para não abrir a porta.

Como eu gostei quando a porta ainda podia abrir, quando eu saía e ia na igreja, e ia na escola. Minha mãe gosta muito da igreja. Gosto daquele homem que a mãe chama de pastor, ele traz comida pra gente. Minha mãe fica boazinha quando fala com ele. Vou cozinhar alguma coisa pra gente comer, menina. Vou fritar frango com linguiça, ovo com bife. Cuidado aí na escada, é melhor esperar os bombeiros chegarem. Ela ameaçou jogar água fervendo, tem água na panela. Lá fora tem sol, eu não gosto do escuro e nem dos bichinhos. Vamos rezar, menina, rezar para ser abençoada. Só Jesus vai nos salvar dos demônios.

Não, não vou abrir a porta. Você não é ungido, não é meu amigo. Sai de perto da porta, Jesus mandou sair de perto. Vocês são todos amaldiçoados. Cadê o pastor? Como assim, você que é policial não vai abrir a porta? Porra mano, a mulher falou que vai jogar água fervendo. Vou é chamar os bombeiros. Calma aí que eles já vem. Os demônios não podem entrar aqui. Sai de perto da porta menina. Tá claro lá fora. Será que trouxeram alguma coisa pra mim? Eu queria sair, ver o que está acontecendo lá fora. Porque será que tem tanta gente aqui em casa? Vieram me visitar? Será que trouxeram alguma coisa para mim. Eu gosto de bonecas, mas a minha quebrou, tá sem a cabeça.

Ela estava melhor, chegou até a frequentar o CAPS. E a menina estava na escola. É, estava muito melhor do que hoje. Nem sei quanto tempo estão trancadas lá dentro, acho que quase um ano. Não deixo faltar nada, mas estou preocupado com elas. Ela é um boa mãe, cuida bem da criança. Pena que tem esse problema. Agradeço muito o senhor, está sendo muito atencioso, ajudando mesmo a gente. Minha esposa é que vai ficar com a menina. Amenina tem um problema, sabe, tem síndrome de Down, é meio assim. Eu fico muito triste com tudo isso. Fico pensando se não foi culpa minha, acabei saindo de casa. O senhor é meu pastor, nada faltará.

Malditos demônios, malditos. Mãe, tem gente lá fora. Porque a gente não fala com eles? Que luz estranha mãe, que barulho. Fica quieta aí menina, eles não gostam da gente, vão fazer maldade. Vamos rezar, minha filha, vamos rezar. E aí gente, o que está acontecendo? Água fervendo?!?! Porra, tenso, ehn?! Vamos entrar sim, prepara o equipamento de proteção. Pode deixar, vamos falar com ela. Vou falar que tô carente, duvido que ela não abra. Hahaha. Ai, moço, será que vamos conseguir agora? Vamos, meu amigo, vai ficar tudo bem, você vai ver.

Não, não quero falar com ninguém! Você é ungido? Não posso abrir a porta. Oi minha senhora, tudo bem? Me falaram que a senhora tá precisando de ajuda, vim aqui ver o que é. Sai daqui, foi o demônio quem mandou você vir. Leva embora os bichinhos que você trouxe. Calma minha senhora, vamos conversar. Não quero conversar com ninguém, vocês não são abençoados. Cadê o pastor? Quero falar com ele. Mãe, é um bombeiro. Que legal. Deixa ele entrar, vai?

Você não é meu amigo. Vim aqui para ajudar, seus parentes estão preocupados. Abre a porta pra mim, vai? Pode ver que não tenho nada comigo. Essa roupa? É que falaram que a senhora é brava. Se eu tirar o capacete a senhora abre a porta pra mim? Cuidado aí meu amigo. Se forçar a porta pode derrubar em cima de alguém ou de alguma coisa. Ai, o que será que ele está falando para ela? Olha, olha só, ele conseguiu entrar.


Vamos, minha filha, que Jesus está me chamando. Ele está no hospital, e pediu pra eu ficar lá um pouco, dando uma descansada. Falou que o médico vai cuidar de minha cabeça. Vou passear na rua. Nossa, que bonito é aqui fora. Tinha até me esquecido. Dá pra correr, tem o sol, várias pessoas e um monte de coisas. A rua é bonita, aqui fora é o lugar mais bonito do mundo. Você é ungido? Sabia que você era abençoado. Você é meu amigo.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Dentista

Tive um problema com um dos dentes e ele quebrou, em dois momentos, ficando só com uma pontinha pendurada. Fui  a um dentista, emergência, e uma mocinha me atendeu, observando que a dor que eu sentia quando fechava a boca era resultado da pressão que a pontinha solta fazia contra a gengiva, por dentro. Sugeriu, como solução provisória, arrancar a pequena e incômoda lasca. Aí já tive um pressentimento do que estaria por vir, quando ela valeu-se de um alicate para extrair, abruptamente, o pedaço saliente, após uma rápida anestesia. Impressionou-me, confesso, a praticidade sem rodeios com a qual tratou meu doloroso trauma bucal. Marquei o retorno para dois dias depois.

Aquele consultório de pareceu, então, transformar-se em uma espécie de máquina do tempo, conforme o tratamento prosseguia. De início, pareceu-me que oferecia-me avançar na história, realizando um tratamento altamente tecnológico, obra prima da bioengenharia, com o implante de um pino de um metal nobre, titânio (ou seria adamantium?), em um procedimento simples e indolor. E que antes seria preciso, apenas, extrair a parte que restou do dente, basicamente a raiz, sem a parte de cima, a coroa do dente.

O consultório, asséptico, tinha ares modernos, com detalhes estilizados nas paredes e equipamentos modernos nos consultórios. Uma enfermeira pediu pra eu bochechar um treco, "sem enxaguar depois, tá?". Colocou uma touca na minha cabeça e algo parecido com a touca de cabelo no meu sapato (na verdade, eu estava de chinelo e o resultado ficou meio estranho). E então entrei na sala do dentista, um cara meio gordinho e loiro, parecido com o ator do filme "Capote". Um cara grande, registre-se, que realizaria ambos procedimentos, a extração e o implante.

Sentando na cadeira, contudo, a máquina do tempo retornou velozmente ao passado, e eu nem percebi.
Colocou um "campo" sobre mim, um pano com um furo, que delimita o espaço de trabalho do médico, ao mesmo tempo em que tampa a visão do paciente. Postou-se de um lado e pediu para uma enfermeira ficar do outro, com um sugador nas mãos e servindo também como instrumentadora. E observou que, como o dente em questão havia sido submetido a um tratamento de canal, ele "morreu", e estava calcificando-se no osso da mandíbula, o que poderia dificultar um pouco a extração. Deu-me algumas agulhada de anestesia, e pediu que eu abrisse "bem grande" a boca.

Pela fresta do campo pude ver que a primeira ferramenta que ele usou parecia uma chave de fenda, das grandes. Passou a fazer pressão sobre o dente, ao que parece procurando soltá-lo de sua base, e encontrou alguma dificuldade. Daí em diante o quadro só piora.

Pisou em um pedal e ergueu o encosto da cadeira, colocando-me quase sentado, e começou a fazer uma força crescente, agora usando duas daquelas "chaves de fenda". De fato, não doeu quase nada, a não ser em alguns pequenos pontos, de  forma discreta, e então mais anestesia era dada. Nesse momento já fiquei preocupado, e percebia-me um pouco tenso, e decidi colocar o braço para fora, a postos para ser levantando denunciando alguma dor mais forte. Meu primeiro susto, que é a confirmação do receio, aconteceu com o primeiro estalo que ouvi, quando percebi um solavanco com as chaves de fenda. Para ampliar o desconforto, não enxergava tudo o que estava acontecendo, e ficava meio fragilizado nessa condição de desconhecimento. Levantei a mão e perguntou-me se era "dor ou pressão".

Meu desconforto aumentou bastante quando depois de muito forçar a base (e minha gengiva), trocou de ferramenta, segurando então uma espécie de alicate de bico fino, com um vigoroso cabo serrilhado de aço inoxidável, e segurou uma saliência. Pensei que puxaria, apoiando-se nessa pegada, mas em pouco outros estalos, quando percebi estilhaços em minha boca. Percebi então uma tensão por todo o corpo, que retesava meus punhos e pernas. A enfermeira seguia frenética com seu sugador, e o dentista mudava de posição como quem procura um ponto de apoio melhor para fazer força.

A ideia era ir forçando para os lados, laceando a base, e o dentista ia alternando as ferramentas, entre o par de chaves de fenda, e às vezes uma ou outra chave era usada -isoladamente, e o alicate. Arrancar aquele dente parecia estar sendo mais difícil do que esperava-se, e essa percepção, mais difusa, alardeava-me intimamente. E passei a perceber que a gengiva, no local da intervenção, estava machucada, com bastante sangue. Conforme agonia se prolongava, minhas pernas iam se retorcendo, e meus braços apertavam os braços da cadeira com força.

Alguns estalos a mais, e o dentista pediu para a enfermeira um "fórceps 65 ou 69, para raiz". Ela procurou, não achou e pediu para outra enfermeira que procurasse com um colega. Nesse momento o dentista deu uma parada e disse que eu poderia descansar um pouco, e comentou "tá difícil mesmo tirar essa raiz. quando faz canal é assim...". Perguntei, já querendo ver logo o fim daquilo, se estávamos perto do fim. "40%".

Seguiu tentando lacear o dente, e puxar, quando veio com outra tentativa, qual seja quebrar partes do dente usando a broca. Aí fiquei realmente incomodado, e percebi que me retorcia na cadeira, enquanto notava um cheiro de queimado saindo de minha boca.

Nesse momento, minha própria disposição já tinha mudado. Não mais queria "só não passar dor". Queria mesmo que aquilo acabasse logo. Pensava em coisas como "será que sobreviveria à tortura?" e "nunca mais deixo de cuidar de meus dentes". Escorregava da cadeira e estava todo tenso, às vezes grunhindo de paúra. Não mais me importava com a crescente pressão sobre meus dentes e gengiva, com o buraco vertendo sangue na minha boca, com o cheiro de queimado, com a enfermeira maníaca do sugador, só queria que aquilo acabasse.

Foi quando, mesmo causando um pouco de dor, o dentista forçou e o dente finalmente cedeu, em um estalo um pouco mais acentuado. Pegou o fórceps e ainda precisou fazer alguma força para conseguir extrair essa primeira metade. Ato contínuo, forçou um pouco mais o segundo lado, já meio sem paciência, e esta logo cedeu, também estalando em um pequeno tranco, sendo finalmente retirado para meu alívio. Tive vontade de chorar, não de dor, mas pela violência cometida.

***

Para acabar, o implante. Depois de um breve descanso, com a boca latejando, mesmo anestesiada, e com o sangue vertendo (enquanto a enfermeira sugava a saliva e o sangue, insistentemente, obssessivamente), iniciou-se o implante, aproveitando a  "abertura" que havia.

Usou o motor convencional, esse de obturação, que aliás já tinha usado para quebrar o dente, adaptando uma broca em sua ponta, não fininha com aquela pontinha redonda, mas uma broca mesmo, certamente de um pequeno calibre, mas imaginei enxergar até os sulcos helicoidais típicos de brocas de madeira ou concreto. Ajustou minha posição na cadeira, e disse, testando a broca ao alcance de meus olhos, "agora será mais tranquilo".

Furou minha mandíbula e colocou um pino de metal no buraco, rosqueando.

Deu cinco pontos no buraco de minha gengiva.

Quando saí de lá senti uma tristeza profunda que demorou mais a passar do que minha dor. Pensei que poucas coisas podiam ser mais bárbaras do que descrever essa intervenção.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

GUERILLA RELOAD

Ativou o dispositivo de interferência pelo telefone celular ao mesmo tempo em que a iluminação da Avenida Paulista foi desligada pela equipe de apoio. A ameaça de bomba no metrô serviu para distrair a polícia enquanto sete membros da Legião passavam pelas câmeras desligadas da portaria da TV em direção às antenas da emissora. Convocariam a população para tomar de volta tudo aquilo que foi comprado pela Corporação, principalmente a própria vida.

Depois da privatização das policias locais virar moda entre os administradores ultra liberais, os próprios exércitos nacionais passaram a ser geridos por empresas privadas. Uma vez que controlou esse ramo de negócios, a Corporação aumentou sua ambição e promoveu golpe bem sucedido, primeiro nos Estados Unidos. Seguindo o efeito de demonstração, outros países viraram regiões dominados por empresas privadas.

"Nada nos deixa com medo", disse Kilma para o pequeno grupo tático reunido em frente ao edifício da emissora universal de sinais, "porque para nós só existe o futuro". Foi escolhida para liderar essa ação porque sempre arruma um jeito de sair das confusões e porque achavam que ela ficaria bem na TV. Era loira, alta, de grossos dreds na cabeça, com alguns implantes luminosos no contorno do rosto e olhos embranquecidos, ou seja, além de bela transparecia força e vontade, fundamental para manter audiência.

Kilma era filha de pais outrora ricos que perderam tudo que tinham já no início da grande crise econômica que pôs fim ao liberalismo. Quando veio a guerra não tiveram muitas condições para resistir e ela assistiu seus últimos parentes serem vítimas da grande seca que veio logo após a bancarrota dos americanos. Comandava a equipe de infiltração depois de quatro anos na clandestinidade imposta pelo golpe militar com o qual a Corporação assumiu o poder.

A equipe de infiltração contava com dois batedores, responsáveis pela proteção do grupo, mais um virtualista, que comandava a parte informacional e técnica da missão e um destravador, que abria todos os portões, senhas e códigos que encontrava. Esse agrupamento era responsável pela defesa e pela viabilização da passagem até o objetivo. Além desses quatro, mais um visualizador, que fazia a cobertura do fluxo informacional do entorno e um especialista próprio para cada missão (nesse caso, um especialista em multimídia de propagação viral), além de Kilma.

Levavam armas (não letais) modernas, mas que não se comparavam com o poder de fogo (letal) das "equipes de dissuasão" da Corporação. Os quatro da contenção traziam um armamento mais pesado, com granadas de paralisação e um grande canhão de luz sólida, além de disruptores sônicos e alarmes de presença ligados a lançadores de adesivo ultra forte. Todos os outros tinham um fuzil sônico e uma pistola de transmissão elétrica, armas leves e eficazes, pois não obstante a demora na recarga da primeira e a falta de precisão da segunda funcionavam bem em conjunto, em geral com tiros elétricos difusos enquanto se aguarda o diapasão do rifle sônico encher, o que certamente irá "desligar" o cérebro do inimigo.

Os disruptores neurais (ou sônicos) eram uma das armas preferidas dos rebeldes, pela sua precisão e eficiência, além do fato de não serem letais. Disparavam uma onda sonora subsônica, que atingia vários alvos simultaneamente, “desligando” temporariamente o sistema nervoso central. Seu único defeito era que, a cada dez tiros curtos ou três longos, a arma precisava de um período de recarga.

O primeiro andar é um grande hall de formato quadrado, com quatro portas de entrada, de pé direito bastante alto, ladeado por inúmeras colunas retangulares, estreitas e cumpridas. Nas laterais, entre uma coluna e outra tem um elevador, somando mais de trinta elevadores de cada lado do hall. No fundo um grande balcão, que tomava quase toda a extensão do fundo da sala, e de cada lado desse balcão uma porta que leva à área de trabalho do prédio, com algumas salas e escritório e uma saída para a escada de incêndio.

Os dois da contenção assumiram seus postos em cada uma das portas de entrada da ponta, plantando um escudo elétrico em cada uma das portas, além de espalharem algumas armadilhas pelo caminho. Os outros dois que ficariam no pátio, o virtualista e o destravador, postaram-se junto dos escudos e armaram o canhão de luz (arma que gera um campo sólido de fótons que atinge o inimigo na velocidade da luz) no modo automático, e depois seus disruptores sônicos.

A primeira dupla pretendia conseguir o mínimo de proteção para poderem os segundos começar um tiroteio com as granadas de paralisação e rajadas de plasma refletido. Com esse barulho todo, um pouco de sorte e a costumeira incompetência das forças oficiais, poderiam conectar todos os membros nas redes internas e abrir as passagens necessárias para que a missão pudesse completar-se.

Os demais adiantavam-se em direção à porta do fundo do lado esquerdo, que daria acesso em sua respectiva área de serviço à uma sala da segurança com conexão aos sistemas de segurança. O plano era trocar para elevadores determinados em andares sortidos, acima e abaixo, estando todos os demais elevadores indo para andares aleatórios. Isso em uma torre com 60 elevadores e mais de cem andares confunde bastante se não se pode rastrear os elevadores.

Os crachás falsos serviram para passar pela portaria, mas logo os disruptores sônicos tiveram que ser usados para derrubar os guardas que se mantinham fiéis à Corporação. Em um momento de leve distração quase foi atingida por uma rajada de projéteis perfurantes, quando percebeu de relance sua  imagem refletida no capacete do policial caído no caminho. Aos olhos do policial, foi como um anjo da morte encarnado em uma beldade de dreds loiros, olhos azuis, que corria em direção às escadas enquanto aguardava sua arma recarregar.

Do outro lado da avenida, um pouco mais à frente do Parque Trianon, uma pequena multidão se reunia, rezando de forma frenética pela alma dos animais mortos em experimentos científicos ou usados como batedores em guerras tribais. Vestidos todos de branco e com os rostos tatuados, mantinham as tradições de auto imolação e amputação, mesmo proibidas pelo governo da Corporação. Aliás, o que não era proibido pela Corporação? Alekei pensava enquanto via os religiosos correndo da repressão enquanto alguns eram destroçados pelas rajadas magnéticas da polícia.

Os membros da equipe de Kilma sabiam que morreriam assim que a Corporação despachasse o armamento pesado e enfrentaram bravamente os planadores de assalto com seus mísseis de atomização e a equipe de ajustamento de conduta com suas carabinas de plasma. Os sacerdotes e convertidos da Igreja ecológica da revelação digital também sabiam que seriam igualmente reprimidos e chacinados, ainda com mais vigor do que agora. Mesmo os milhares de pessoas que só estavam passando por ali estavam todas com muito medo da Corporação.

Assim que as equipes sociais se aproximaram do prédio o cântico dos sacerdotes virtuais se avolumou, tensos de terror. Foi em um misto de êxtase religioso, entre cantos e imolações, e a proximidade do massacre do outro lado da rua, que um sacerdote, outrora Baalaor, percebeu o que estava para acontecer. Pode assistir, bem próximo, o primeiro disparo de projéteis de urânio, perfurantes e radioativos, descrevendo um arco luminoso até arrebentarem em luz, som e violência, destroçando a parede do prédio.

O visualizador deu o aviso da aproximação das equipes de dissuasão que começaram a estalar como estrelas em sua tela e correu para a janela. Começou a disparar do vigésimo quarto andar, acertando as primeiras bombas neurológicas no meio da infantaria que avançava protegida pelos blindados. O virtualista então conseguiu concluir a conexão, destravou as portas do caminho de Kilma e acessou os controles dos veículos blindados para convencimento  em massa travando seus sistemas de propulsão aérea, atrasando sua chegada e evitando o combate direto contra eles. De cada ponta da sala os batedores disparavam seus canhões derrubando soldados e veículos aéreos leves. Esperavam que esse barulho todo conseguisse permitir que o virtualista viabilizasse a chegada de Kilma e o especialista na torre, para divulgarem a palavra em missão de marketing ideológico.

Depois de derrubarem os dois batedores com tiros de canhões de plasma, derretendo-os, lançaram cargas eletromagnéticas que desestabilizaram o virtualista e o visualizador, tornando-os alvos fáceis de abater no avanço dos agentes de ordem e controle com suas carabinas biológicas. O prédio já estava, nesse momento, cercado de forças de controle social. O destravador caiu poucos segundos depois dos quatro primeiros, tão logo abriu a grande porta de íons que protegia a aérea alvo.

Na rua, aquele que foi Baalaor é atingido nas costas mas pouco se importa, pois aquele ferimento era, para ele, como um sinal da revelação de seu destino. Quando a equipe de assalto invadiu o prédio, outro grupo de agentes de controle social avançou para abrir um perímetro de segurança, derrubando os transeuntes e também a reunião dos sacerdotes virtuais. Junto com a elevação dos cânticos que os sacerdotes dedicavam aos circuitos binários primários foi que Alekei, que passava na rua naquele momento, cidadão paulistano, devidamente registrado e marcado com seu código exclusivo de acompanhamento individual, teve que começar a correr para se defender naquela confusão. 

Alekei pode ouvir reverberar o ar com a mensagem que Kilma fez correr pelos ares e redes, instantes antes dela estourar a própria cabeça ao ver que seria irreparavelmente presa. Se fosse presa seria então, como todos os prisioneiros violentos, propriedade da Corporação, e seria retalhada para testes medicinais e científicos após horas de tortura. Preferiu, quando percebeu os sacerdotes de alguma forma envolvidos naqueles eventos, sacrificar seu corpo à divindade digital para preservar seu profile.

A mensagem falava da Fênix, de queimar para expurgar os males, era a mensagem de Kilma, amor e genocídio como valor e método. Os sacerdotes avançaram sacando armas brancas de reverberação, usando seus implantes biônicos de força para esmagar seus alvos, os agentes de controle, saltando para dentro dos planadores, entrando no metrô, derrubando os guardas e entoando orações contra o domínio da Corporação. Alekei sentiu muito medo e, mesmo assim, entrou no prédio, no movimento.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

DECIFRA-ME OU DEVORO-TE


Perdemo-nos na estrada mas encontraremos nossos caminhos. Estrada de terra, carros atolados, discussões complexas. Caminhada com o povo, perigosas curvas, veredas vivas. Pensamentos de quina, sinuca em uma mesa esburacada como a periferia da Zona Leste de São Paulo. Estratégias, algoritmos, mapas - o mundo não é cartesiano, e a verdade está no movimento, no rio que corre, na criança que nasce, na humanidade que merece justiça e paz. A caminhada do exemplo, companheiro de armas, sonhos e amores, nos levará adiante, tanto mais longe quanto mais gente, até sermos todos e ser tudo nosso. E se não for a gente toma!

(por ocasião da reunião de planejamento do mandato democrático e popular Toninho Vespoli vereador)

sábado, 4 de agosto de 2012

A realidade, a construção da realidade e a comunicação de massa


Dois eventos mostram como hoje em dia os meios de comunicação exercem enorme influência em nossa vida cotidiana. A cobertura dos jogos olímpicos pela Record, e não pela Rede Globo, emissora de maior audiência no país, diminuiu a exposição do evento ao público em geral, com menos gente assistindo, menos conversa sobre o assunto, menos expectativa e torcida envolvida. Era comum ouvir as pessoas falando “é como se não estivesse acontecendo as olimpíadas” ou mesmo “É mesmo? Já começou?”.

O outro acontecimento que tem sua percepção pelo publico determinantemente influenciado pelos meios de comunicação de massa é a eleição. A campanha já começou há mais de um mês, mas ainda não é assunto de conversa de boteco ou de fila de banco, como se ainda não tivesse começado. Em certa medida o primeiro debate eleitoral é um ponto de divisão, momento onde ocorre uma primeira exposição maciça, específica e estendida entre os candidatos; outro ponto é o início da campanha de TV, quando o grau de exposição cresce enormemente.

São reveladores da força dos meios de comunicação de massas, capazes agora de alterar o estatuto de realidade das “coisas” do mundo, quer dizer, de fazer certas coisas parecerem mais ou menos reais aos olhos das pessoas. Os meios de comunicação em massa, e a TV em especial, determinam as informações que a população terá acesso sobre as coisas e os eventos do mundo, ditando assuntos e opiniões. Funcionam, de certo modo, como uma espécie de lente ou de filtro da realidade.

Peter Berger e Thomas Luckmann escreveram um famoso livro de sociologia do conhecimento1 onde afirmam que “a realidade é construída socialmente”. Isso, claro, em um sentido específico para a palavra “realidade”: para o sociólogo, aquilo que é percebido como real, que exerce influência prática na vida das pessoas, independente da validade “absoluta”. Assim, “O homem de rua habita um mundo que é 'real' para ele, embora em graus diferentes, e 'conhece', com graus variáveis de certeza, que esse mundo possui tais ou quais características” (p. 11).

A manipulação midiática tem impactos mais profundos do que aparece a primeira vista. Mais do que agenda e opiniões, constrói algo como uma realidade paralela, onde determinados assuntos são acentuados e outros apagados da cobertura, disputando a “visão de mundo” da sociedade. Tamanho controle deve ser combatido pelos cidadãos de bem, ciosos de sua própria realidade. Oxalá a internet, realidade virtual, siga ajudando na briga desse mundo aqui, do hardware e da luta de classes.

1BERGER, Peter L & LUCKMANN, Thomas. A construção social da realidade. Petrópolis, Editora Vozes, 1973.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

O HOMEM QUE SÓ TINHA FUTURO

O auditório lotado exalava a alegria da cerimônia de colação de grau. A cerimônia era a metáfora de uma porta, início de uma longa estrada, sendo que os graduandos estavam na grande sala oval antes da porta que agora atravessariam. Completando um ciclo, um rito de iniciação marca a abertura da porta, pois o rito consiste nos procedimentos necessários para a entrega da chave. Quando seu nome foi chamado percebeu em um lampejo que já estava na estrada, e não conseguia enxergar porta alguma, pois ele era um homem que só tinha futuro.
Recebeu o diploma com absoluta indolência e, orador da turma, dirigiu-se à tribuna: "Escolhi seguir a carreira de administração, pois nessa área é preciso ter, dizem, visão de futuro. E nada poderia ser melhor para mim, pois sou um homem que só tem o futuro. Talvez não compreendam ao certo o que quero dizer, e mesmo considerem algo abobado ou impossível o que vou lhes confidenciar. Mas, antes que pensem que eu estou usando de algum sofisma ou metáfora, quero dizer que minha afirmação, por mais absurda que pareça, deve ser encarada ao pé da letra.
"Claro que isso é impossível fisicamente, ainda que alguns experimentos quânticos sugiram alterações no fluxo do tempo, simultaneidade de eventos, chegando a considerar uma condição na qual o tempo ainda não existia, tal que a pergunta sobre o que antecedeu a origem não tem resposta. Só que não é disso que eu quero falar, ainda que a posição do observador influencie o objeto.
"Quero falar do futuro como única realidade válida para mim: nenhuma realização, todos os projetos; nenhuma mágoa, somente procura; nenhum prazer, toda sabedoria. Ao receber o diploma eu nada realizei, apenas abri outras oportunidades para seguir caminhando. Perco a liberdade por não ter presente enquanto ganho a plenitude por ser só esperança. O caminho apresentado, seguro e preparado, com suas etapas fixadas e seu calçamento calcificado, não está bem sinalizado: no passado mora a enganação.
"O futuro é o primogênito do nada: sem ele não haveria sentido para as coisas. Toda razão está no passado, todo raciocínio no presente: no futuro mora o sentido. O futuro é uma casa sempre distante. Não importa o quanto você ande, nunca alcançará a casa. Mas não se deve desistir – a derrota é o castelo do presente, tão alta que vira passado. As dificuldades podem ser imensas, mas sempre há um modo de alcançar o futuro: no futuro toca uma música que atrai até os mais céticos. Trata-se de compreender que entre o aqui e o futuro há uma distância a ser percorrida e não um tempo que vai passar: o tempo é só uma sequência de instantes.
Tudo ainda vai acontecer, e só sei conjugar os verbos no futuro – não como um profeta, mas como uma criança. Essa condição seria, talvez, um pouco angustiante, pela falta de referência e pela perda da experiência, mas ao invés de lamentá-la só sei ver as expectativas. Assim como a infância, quando o futuro é um campo sem caminhos traçados coberto pelo fresco orvalho da manhã. Talvez exista a maturidade, mas só o sábio dirá que sempre há mais algo a aprender".
Desceu do púlpito e, antes do olhar de estranhamento e reprovação virar o crescente murmúrio que quase desandou em briga, ausentou-se do ambiente de forma tão imprevista como o tom de divagação de seu discurso alcançou os ouvidos dos presentes. O momento de suspensão do comum – a cerimônia que servia como justificativa para que todos seguissem o caminho já dado que as pesadas mãos do passado ergueram como estradas romanas – depois da confissão pública que fizera, apareceu como um grande teatro, grande arena, cujos alicerces apodreceram, e nenhum engenheiro mais consegue explicar a escolha dos materiais.
Sua vida, somente futuro, impedia a compreensão normal do mundo, pois no início era o verbo (e ele não conhecia os princípios), e só o verbo se entende; impedia também sua presença nos acontecimentos (o presente lhe era estranho), e todos seus pensamentos se ancoram no futuro, sem moral e sem juízes, sem tradições e sem fatos para serem julgados. Saiu do prédio e uma infinidade de opções lhe apareceu no mesmo golpe de vista, como que um instante longamente estendido, e percebeu que já estava caminhando, e que sempre e só estivera caminhando, e que simplesmente seguia os caminhos.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Toleima e Tolima

Toleima é sinônimo de tolice. Lembrei-me dessa palavra, meio arcaica, que só vi sendo usada por João Guimarães Rosa, pensando no time colombiano que o Corinthians enfrentará hoje, o Tolima. Não é qualquer tutaméia o jogo de que se trata (tutaméia é o título de um livro do mesmo escritor, e significa coisa pequena, sem importância, bobagem). Pelo contrário, depois de um sofrido empate aqui em São Paulo, onde o time jogou um futebol apático e insuficiente, a partida de volta assume contornos épicos, como só a literatura ou o futebol podem oferecer à humanidade.
O Corinthians conta com uma boa equipe, liderada por Ronaldo, espécie de herói que parece ter feito algum trato com o diabo, que lhe trouxe enorme habilidade e, sobretudo, imensa capacidade de superação. É a maior esperança de uma nação de religiosos, como foram aqueles que viveram em Canudos. O Tolima conta, por sua vez, com a força dos índios colombianos e com a fraqueza dos últimos resultados do Corinthians. Tem um bom centro avante, Wilder Medina, mas em geral um time mediano. Só que jogará em casa, em um gramado (ruim, por sinal) que já foi cemitério. Como as veredas mortas. Futebol é quase literatura.
Depois do centenário onde nada conquistou, uma derrota precoce na Libertadores, tão esperada pela Fiel, seria uma verdadeira tragédia, como a morte de Diadorim. A vitória, de sua parte, significaria o início da travessia. Time pra tanto o Corinthians tem. Só falta agora deixar de toleima e jogar bola. Não que a zebra esteja ausente – o sertão está em todas as partes. Para vencer, não basta um time bem montado e figuras de renome. É preciso colocar o coração na ponta da chuteira e enfrentar Hermógenes. Como canta a torcida, tem que jogar com raça e com coração, pois é o time do povo, o coringão. Literatura, meu senhor, é quase futebol.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Salve o Corinthians

O Corinthians comemora seu centenário. Um século de vida, lutas e glórias. E, como diz o poeta, viver é muito perigoso. Quer dizer que a vida não é fácil e que aquele que reconhece essa condição pode vivê-la mais plenamente. Também por isso sou corintiano, maloqueiro e sofredor – pela realidade da vida, que só pode nos trazer tantas alegrias e surpresas na medida em que, às vezes, também nos traz sofrimento.
Quando um clube, assim como uma classe social, se distancia da dureza material da vida, passa a viver em um mundo imaginário e a acreditar que esse mundo imaginário é a vida real. Tive o imenso prazer de estar presente na festa que aconteceu no Anhangabaú. Realmente, uma festa do povo, digna daquele time que, já na sua fundação foi marcado pela fala, profecia e vaticínio de um de seus fundadores, o alfaiate Battaglia: “O Corinthians é o time do povo, e é o povo quem vai fazer o time”. A imensa festa popular explicitou essa realidade com a força das multidões e a beleza da paixão, desde o tamanho da multidão reunida até a presença dos ídolos do Corinthians.
A festa teve seu ápice quando, embalados pelas baterias das torcidas organizadas, mais de 130 mil pessoas entoaram o hino do clube em uníssono. Tive então a honra de ser apenas mais um naquele povo, e a emoção de compartilhar o amor que mais de 30 milhões de pessoas dedicam, sem esperar nada em troca, à República Popular do Corinthians.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Réquiem para D. Camélia

A morte é a melhor pergunta de todas. Negatio, diz Descartes, est determinatio. É por conta da morte que procuramos um sentido para a vida. Não me atrevo a dar sugestões, mas sei que está pensando nesse sentido agora. De minha parte, fico com Guimarães, a verdade está na travessia. Alguns procedimentos são essenciais, claro, como tentar a felicidade, a saúde, o bem-estar do próximo. Liberdade também é bom, e contém perseverança e convicção, quase coragem. Honra é de Deus, não é de homem. De homem é a coragem!...

Ocorre que minha vó, Dona Camélia Vitelli de Oliveira, 96, faleceu. Não conheço os detalhes de sua biografia. Era mãe de meu pai e nasceu no Brasil, fillha de pais italianos recém migrados – sua irmã, um pouco mais velha que ela, nasceu (ao que me consta) ainda no navio – e casou cedo com João Azevedo, com quem teve dois filhos, meu pai Décio e minha tia Júnia – a maior fortaleza que já se viu, na forma terna de cuidado, compreensão e amor. Formou-se advogada, grande orgulho, e trabalhou por longa data no Instituto Adolpho Lutz, além de ter lecionado música, se não me engano inclusive em um conservatório. Fumou até os 90 anos, brigou por suas opiniões e, mesmo diabética, comeu sempre o que quis.

Era uma pessoa culta e avançada para sua época, gostava de literatura e se mantinha sempre informada sobre o mundo. Apresentou-me o decoro das artes liberais e o refinamento do paladar. Também apreciava jogar baralho (buraco) e acumulou vitórias sobre os netos. Ensinou-me a ler partitura e a ter mais intimidade com o jornal, ensinou-me a conviver com livros e ter uma biblioteca. Sobretudo ensinou-me a firmeza de caráter e a força da convicção. Mostrou que isso tem a ver com uma vida boa, pois é mister determinação para garantir a validade de nossos desejos, de nossas convicções.

Viveu, pois, como quis – maior de todos os ensinamentos. E morreu, também, quando quis. Aprendamos!

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Sidnei Magal e a virada cultural

Ô Magal, pega a minha mãe! gritou o rapaz no início do show do Sidnei, já no início da madrugada. Enquanto eu ria, a pessoa que vinha com o rapaz, como que justificando disse: “Já pensou ter um pai firmeza assim?” De pronto pensei que finalmente encontrara o mote perfeito para essa crônica. A pretensão inicial, de tentar definir o que é a virada, certamente não se concretizará.  Mas a frase inesperada, com tanta gente tão diferente se divertindo – desde os filhos de pais meio ricos e meio de esquerda até a moça da periferia que caiu sobre mim ao tentar subir nos ombros do namorado, passando pela desconhecida que meu conhecido flertava, por mim e pela bela que me acompanhava – naquele momento se fez como máxima determinatio.
A apresentação, feita por Rita Cadillac, seguida pela bombástica "O meu sangue ferve por você", foi tão violentamente popular que arrastou o Largo do Arouche em êxtase. A forma particular da mistura que marca a cidade, com suas situações típicas e as diferenças  sociais tão profundas, encontrou ali uma maneira especial de se manifestar. Não que essas diferenças sumissem ou mesmo se amenizassem. Outras coisas tem que acontecer para encerrar a luta de classes. Mas o que me impressionou foi o domínio popular alcançado por instantes. É das coisas que mais me agrada na virada: o povo da cidade se apropriando do que é seu, mas é constantemente negado.
Porque a virada, que só poderia acontecer na gigante São Paulo, terra da garoa certa, da esperança incerta, do trabalho, incessante - principalmente do povo pobre, em constante luta pela sobrevivência e pela felicidade - tem a mágica capacidade de fazer da cidade, ao menos por 24h, um lugar de alegria. Claro que isso não é uma crítica de arte, tampouco uma análise política. Tem mais a ver com uma impressão sobre a natureza da cidade e das pessoas, sobre uma multidão que só poderia se reunir, desse jeito, na maior cidade do hemisfério sul, com suas quase 17 milhões de almas, em uma cidade que é enorme também em sua diversidade. E acontece principalmente no sua bela região central - Ah! mas tão abandonada que o amante da descuidada Iracema teria um motivo a mais de lamento. A virada me mostrou que a dureza é muita, mas a vontade de superá-la também é maior ainda. E quando transborda, mesmo ao som do Sidnei Magal, arrasta a multidão.

PS: Depois escrevo sobre a Cantoria, tão bela que me pareceu a paz.