quarta-feira, 14 de julho de 2010

Regozijo com a mediocridade

14/07/2010, Opinião, Carlos Lessa


Em recente seminário, discutia-se a situação atual e as perspectivas da economia brasileira. Alguém fez o discurso completo da euforia: as reservas internacionais estão grandes; os preços de nossos principais produtos de exportação estão relativamente elevados e têm sofrido menos que diversos bens industrializados; o emprego vem crescendo (se bem que o salário real médio esteja declinante); há um aumento no número de famílias de classe média, pois, aparentemente, a família que detém por mês R$ 1.400 deixou de ser pobre; nos últimos quatro anos a economia brasileira cresceu quase 4% ao ano, sendo portanto nitidamente superior aos medíocres 2,3% ao ano das décadas anteriores.

O discurso da euforia terminou com a afirmação categórica de que agora vamos para a prosperidade permanente, pois atingiremos, em breve, um patamar de crescimento de 5,5% ao ano. Alguém do auditório perguntou como seria possível ao Brasil crescer a essa taxa, de forma sustentada e por muitos anos, tendo uma taxa de investimento macroeconômico um pouco superior a 18% do PIB e que o país necessitaria elevar a taxa de investimento macroeconômico para 21% a 22% do PIB e precisaria elevar a taxa de investimento público (inclusive estatais) de 3,5% para 6%, caso pretendêssemos crescer 5% ao ano -o que é um bom desempenho em relação ao Primeiro Mundo, porém absolutamente medíocre em relação à China e à Índia.

Fiquei estarrecido quando ouvi a resposta do conferencista, que afirmou que o Brasil não precisa elevar a taxa de investimento muito acima de 18% porque a estrutura de crescimento do país tem "alta produtividade de capital", ou seja, nos é possível produzir um mesmo aumento de PIB com menos investimento que outras economias.

A resposta elegante é a de um conservador que pensa um Brasil para o futuro permanente produtor e exportador de matérias-primas e alimentos; sabe que a expansão agropecuária exige infraestrutura energética e de transporte, a cargo do setor público. De forma oculta, se manifesta contra a industrialização; desconhece que 80% da população é urbana e 50% é metropolitana. Vale a pena visualizar a planta baixa desse pensamento conservador. Ele sabe que a energia solar, um bom regime climático e solos agrícolas de alguma qualidade produzem grãos (soja, milho, arroz, feijão, amendoim etc.); produzem matérias-primas vegetais (algodão, mamona, cana-de-açúcar, etanos, óleo de palma etc. e até madeira para papel); produzem capim e leguminosas que bois, carneiros e cabras transformam em proteína vermelha.

Com bastante facilidade, os grãos e os resíduos de seu beneficiamento servem para rações que nutrem aves de corte, porcos e, agora, peixes da piscicultura organizada. Tudo isso acontece no perímetro do estabelecimento agrícola e o desempenho depende da variedade de semente, grau de correção e fertilização do solo, combate às ervas daninhas e alguns insetos esfomeados; porém, a variável não controlável é o estado de humor de São Pedro. Derrubar mata virgem, utilizar caixa de fósforo, já garante uma terra com início de fertilidade. Prosperando, o estabelecimento irá comprar máquinas agrícolas, constituir um estoque de fertilizantes e defensivos agrícolas, construir algumas edificações e, se não tiver ligação com nenhuma rede elétrica, instalar um gerador a diesel. São relativamente reduzidos esses investimentos.

No momento em que o produto sai do estabelecimento agrícola, quase sempre por caminhão, segue para um porto preparado para carregar graneleiros. Com a mecanização, o circuito agrícola gera poucos empregos e, nos momentos de colheita, subcontrata (via "gatos") a população boia-fria, que ostenta padrões de quase miséria - esse foi o Brasil da República Velha, que reaqueceu o coração dos conservadores com a difusão neoliberal do sonho da globalização.

Nosso conferencista conservador, que não gosta de industrialização e desconhece a distribuição espacial demográfica do povo brasileiro, percebe no Brasil fontes hidrelétricas a serem exploradas e, a partir do pré-sal, uma enorme reserva de combustível não renovável. Isso lhe alimenta o sonho de converter o Brasil num enorme exportador de óleo cru, baratear a gasolina que utiliza e o óleo diesel com que alimenta suas máquinas agrícolas. Para a hidreletricidade, como despreza o povo urbano, propõe que o Brasil seja favorável a indústrias eletrointensivas. Vê, satisfeito, a energia de Tucuruí ser exportada sob a forma de lingotes de alumínio. Não se opõe ao Brasil exportar couro verde para a Itália, Hong Kong e China fazerem calçados que tiram espaço das indústrias calçadistas gaúcha e paulista.

O conferencista conservador não vê problema no reduzido investimento público em infraestrutura urbana; pouco se preocupa com a qualidade dos serviços sociais, notadamente a péssima qualidade da educação; confia na lógica dos mercados e desconfia da nação, porém é amante dos incentivos fiscais e linhas de crédito favorecidas; gosta imensamente dos altos juros do Banco Central, pois como lhe é permitido reter dólares no exterior, pode - via paraísos fiscais - aplicá-los no mercado financeiro mantido nas alturas pelo dr. Meirelles.

A manutenção da atividade industrial se baseia num avassalador endividamento familiar. Os juros altos favorecem o rentismo e é sonho de muitos empresários terem um pé no mercado financeiro. Na renda nacional, é elevadíssima a participação dos rendimentos que não proveem do trabalho.

Em tempo, nesse mesmo seminário, alguém debochou da ideia de um projeto nacional: "Isto é coisa de chinês". Porém eles prosperaram quando perceberam que exportar era a solução.

Carlos Francisco de Lessa é professor emérito de economia brasileira e ex-reitor da UFRJ. Foi presidente do BNDES; escreve mensalmente às quartas-feiras.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Um sorriso

Um sorriso pode se transformar em muitas coisas
Já que contém mais do que a alvura dos dentes.
É mais do que de felicidade momentânea
Antes, fantástica matéria-prima,
Como laranja madura que vira o suco amarelo
E cheira melhor do que inúmeras manhãs de sol.

Variando o ângulo o sorriso reflete, se calor, flores campestres
E sob outro olhar, chuva litorânea, infinitas gotas de vida.
Quando ouve a primavera, sutil, vira um pequeno e incerto cristal
E pequenas estrelas no calor, principalmente ao vinho
Em prazer quando a madrugada escorre pelos corpos
Explodindo em uma risada de tamanho poder
Que despedaça a janela, as paredes do quarto púrpura
E ameaça toda a textura da realidade.

Caso me ames

Despido de pele e músculos
Vejo meus órgãos caindo
Meus ossos derretendo
Nervos esticando até romperem
Produzindo um barulho
Estalidos e borbulhas
Como um gargarejo
Que abafa a palavra amor

Só o vaso sagrado de teu corpo
Caso me ames
Pode me curar da maldição
E devolver o brilho dourado à minha vida.

Réquiem para D. Camélia

A morte é a melhor pergunta de todas. Negatio, diz Descartes, est determinatio. É por conta da morte que procuramos um sentido para a vida. Não me atrevo a dar sugestões, mas sei que está pensando nesse sentido agora. De minha parte, fico com Guimarães, a verdade está na travessia. Alguns procedimentos são essenciais, claro, como tentar a felicidade, a saúde, o bem-estar do próximo. Liberdade também é bom, e contém perseverança e convicção, quase coragem. Honra é de Deus, não é de homem. De homem é a coragem!...

Ocorre que minha vó, Dona Camélia Vitelli de Oliveira, 96, faleceu. Não conheço os detalhes de sua biografia. Era mãe de meu pai e nasceu no Brasil, fillha de pais italianos recém migrados – sua irmã, um pouco mais velha que ela, nasceu (ao que me consta) ainda no navio – e casou cedo com João Azevedo, com quem teve dois filhos, meu pai Décio e minha tia Júnia – a maior fortaleza que já se viu, na forma terna de cuidado, compreensão e amor. Formou-se advogada, grande orgulho, e trabalhou por longa data no Instituto Adolpho Lutz, além de ter lecionado música, se não me engano inclusive em um conservatório. Fumou até os 90 anos, brigou por suas opiniões e, mesmo diabética, comeu sempre o que quis.

Era uma pessoa culta e avançada para sua época, gostava de literatura e se mantinha sempre informada sobre o mundo. Apresentou-me o decoro das artes liberais e o refinamento do paladar. Também apreciava jogar baralho (buraco) e acumulou vitórias sobre os netos. Ensinou-me a ler partitura e a ter mais intimidade com o jornal, ensinou-me a conviver com livros e ter uma biblioteca. Sobretudo ensinou-me a firmeza de caráter e a força da convicção. Mostrou que isso tem a ver com uma vida boa, pois é mister determinação para garantir a validade de nossos desejos, de nossas convicções.

Viveu, pois, como quis – maior de todos os ensinamentos. E morreu, também, quando quis. Aprendamos!

segunda-feira, 31 de maio de 2010

O BÚFALO

para Paulo

O búfalo, animal interessante
tão grande que assusta
negro, peludo, enormes chifres
grave mugido, tensão
Ah! Mas tem olhos tão delicados
que ao vê-los mostra-se toda beleza da vida.