terça-feira, 19 de julho de 2011

Testamento de um rato

Todos os adjetivos, juntos, não bastam
para descrever, da metamorfose, a feição,
sem anestesia, sangrada em meu coração,
despedaçado, pela culpa da destituição.

A língua, em outros tempos, lasciva,
corroída, pela pútrida violência, cala,
pois o poeta, conturbado, é que fala
ser indigno de qualquer confiança.

Por isso, rato, mesmo que reproduza,
a forma, asquerosa e medrosa: pêlos
negros e disformes, como o caráter
do que pede clemência, ao esplendor;

rato, contudo, não é metáfora ideal,
pois os pobres animais, além de não
possuírem culpa ou sordidez, guardam,
subterrâneos, o respeito e a nobreza:

Na sua fealdade, parecem com o mal,
os rotos do mundo; no terror, indistinto,
a perseguí-los, são como os famintos.
Ora, de um rato, podemos ter certeza.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Corsário na praia

Em frente ao mar, olho para o horizonte e reflito.
Sopra a maresia e minhas lembranças se condensam
Formam-se mais imagens em minha mente que nas retinas
Verdíssimas montanhas, plenas de mata, delimitam a praia
Insinuam-se sobre minhas memórias expandindo-as
Banhistas reais confundem-se com antigas paixões
Ondas de pensamentos se movimentam ao ritmo da maré
Enquanto molho os pés em águas carregadas de tempo

A imensidão do oceano estende-se à minha frente
Próximos de mim se divertem homens, mulheres e crianças
Singrando sobre conchas, peixes, algas e náufragos
No meu íntimo também há um imenso oceano
Com sua população de algas, peixes e angústias
Onde brincam sentimentos e afogam-se vontades
Enquanto a natureza demonstra enormes verdades

A luz do sol, no crepúsculo, incide na vida como um milagre
Colorindo de violeta os desejos e refletindo na água
Caminho para frente e sou benzido pelo sal marinho
Enquanto retorno a reminiscências do tempo de corsário
Todavia as ondas insistem em apontar-me a areia
Onde a beleza do sorriso de meu amor me guarda

Espero que ele possa servir de acalanto. Para todos, para tudo.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Toleima e Tolima

Toleima é sinônimo de tolice. Lembrei-me dessa palavra, meio arcaica, que só vi sendo usada por João Guimarães Rosa, pensando no time colombiano que o Corinthians enfrentará hoje, o Tolima. Não é qualquer tutaméia o jogo de que se trata (tutaméia é o título de um livro do mesmo escritor, e significa coisa pequena, sem importância, bobagem). Pelo contrário, depois de um sofrido empate aqui em São Paulo, onde o time jogou um futebol apático e insuficiente, a partida de volta assume contornos épicos, como só a literatura ou o futebol podem oferecer à humanidade.
O Corinthians conta com uma boa equipe, liderada por Ronaldo, espécie de herói que parece ter feito algum trato com o diabo, que lhe trouxe enorme habilidade e, sobretudo, imensa capacidade de superação. É a maior esperança de uma nação de religiosos, como foram aqueles que viveram em Canudos. O Tolima conta, por sua vez, com a força dos índios colombianos e com a fraqueza dos últimos resultados do Corinthians. Tem um bom centro avante, Wilder Medina, mas em geral um time mediano. Só que jogará em casa, em um gramado (ruim, por sinal) que já foi cemitério. Como as veredas mortas. Futebol é quase literatura.
Depois do centenário onde nada conquistou, uma derrota precoce na Libertadores, tão esperada pela Fiel, seria uma verdadeira tragédia, como a morte de Diadorim. A vitória, de sua parte, significaria o início da travessia. Time pra tanto o Corinthians tem. Só falta agora deixar de toleima e jogar bola. Não que a zebra esteja ausente – o sertão está em todas as partes. Para vencer, não basta um time bem montado e figuras de renome. É preciso colocar o coração na ponta da chuteira e enfrentar Hermógenes. Como canta a torcida, tem que jogar com raça e com coração, pois é o time do povo, o coringão. Literatura, meu senhor, é quase futebol.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Um samba

Um samba revela.
Messias
Para os crentes.

Se imerso na dança, percebo,
delicados contornos
costelas, águas-vivas, úteros
ao longo da imprecisa sinergia que martela
surdo, cuíca, agogô.

E questionamos sistemas
nos passos que fincamos
E nos tornamos mais reais
na concentração da dança
quando luzimos em tons variados.

São infinitas possibilidades
Desfeitas em fios, cheiros e saudades
Absolutas alegrias, amores fantásticos, sorrisos imensos,
E seremos isso tudo
Que busco no samba
Que quero e não alcanço.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

PENSAS QUE VOU TE PERDOAR?

Meu ódio vai evoluir, criar raízes e dar sementes
germinar frutos ocos e disformes
fétidos como a discórdia dos que não amam

Minha raiva vai afiar as esquinas do mundo
Retalhar rostos delicados e claros
ensinando a vingança às crianças e aos vegetais

Minha ira arrebentará seus poros e sorrisos
Cuspirá nas suas desculpas e violentará suas memórias
Apedrejará os monges, as mães e as virgens

Talvez assim eu encontre a paz.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Salve o Corinthians

O Corinthians comemora seu centenário. Um século de vida, lutas e glórias. E, como diz o poeta, viver é muito perigoso. Quer dizer que a vida não é fácil e que aquele que reconhece essa condição pode vivê-la mais plenamente. Também por isso sou corintiano, maloqueiro e sofredor – pela realidade da vida, que só pode nos trazer tantas alegrias e surpresas na medida em que, às vezes, também nos traz sofrimento.
Quando um clube, assim como uma classe social, se distancia da dureza material da vida, passa a viver em um mundo imaginário e a acreditar que esse mundo imaginário é a vida real. Tive o imenso prazer de estar presente na festa que aconteceu no Anhangabaú. Realmente, uma festa do povo, digna daquele time que, já na sua fundação foi marcado pela fala, profecia e vaticínio de um de seus fundadores, o alfaiate Battaglia: “O Corinthians é o time do povo, e é o povo quem vai fazer o time”. A imensa festa popular explicitou essa realidade com a força das multidões e a beleza da paixão, desde o tamanho da multidão reunida até a presença dos ídolos do Corinthians.
A festa teve seu ápice quando, embalados pelas baterias das torcidas organizadas, mais de 130 mil pessoas entoaram o hino do clube em uníssono. Tive então a honra de ser apenas mais um naquele povo, e a emoção de compartilhar o amor que mais de 30 milhões de pessoas dedicam, sem esperar nada em troca, à República Popular do Corinthians.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Suicida

Atirei-me do penhasco da vida, suicida e ansiosa
Sempre em busca de mais velocidade, mais atenção
Sempre confiando que não me arrebentaria no concreto
Mas faltaram as mãos que me segurariam pelo cabelo
Faltou o colo que me acalantaria em cafunés e fodas

O voo cego e a sensação de liberdade embotaram
meus sentidos de alumbramento, minha razão de loucura
E, aturdida, passei a confundir o êxtase com a liberdade
A buscar novas mãos e colos, novas paixões e gritos
Mas só então notei que a dor da queda pertence ao cotidiano

Descobrirei, logo, que meus desejos já estavam atendidos
E que sempre haverão novas vontades, já que sou infinita.