quinta-feira, 29 de outubro de 2015

A PM tem que acabar

Pequenino e brilhante, caminhava a criança
pelas ruas estreitas do complexo, de barro
Ia comprar bolinhas e sonhos na venda
moedas que mal cabiam na mãozinha

Sua fragilidade singela, seu futuro e seus pais
Tudo estraçalhado pela bala do fuzil da PM
Profanando toda a pureza em sangue
infestação de vermes, carne apodrecida, a morte

A poesia se afoga em uma gosma asquerosa
Hecatombe onde nada mais resta ou resiste
Só os escombros de edifícios e construções
e as lágrimas da mãe que chora desesperada.

O poeta também chora as crianças assassinadas
imigrantes, faveladas, negros e todos que clamam
Lamenta sua incapacidade, sua pequenez
A miséria de ser apenas um simples homem

enquanto uma chuva de pequenos cacos desaba
Os vidros e espelhos de nosso mundo se estilhaçam
cortando pele e convicções, sangrando o globo ocular

E o cheiro de tudo que sobra é azedo e desconfortável.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

A CRIANÇA TURCA




















para Aylan e Galip Kurdi

Aquela criança fugia da guerra
morreu afogada na travessia.
Todas nossas crianças queridas
morreram afogadas na travessia
fugindo da guerra

Antes de sair de casa
sorria com o irmão e seu ursinho
a mãe lhe arrumou para passeio
bermudinha, camiseta, cabelo penteado
um beijinho antes de partir

Encontrou apenas desespero e morte,
(e não há pior que afogamento).
O petróleo e a geopolítica afogaram os sorrisos
dos dois irmãos com o ursinho de pelúcia
que iriam passear e encontrar papai

A humanidade morreu afogada na guerra
assassinou as crianças na travessia
de bermuda e camiseta, dormindo
acalantadas apenas pelo profundo oceano
distante de qualquer coisa de gente.


segunda-feira, 8 de junho de 2015

ARQUITETURA DA SOBREVIVÊNCIA

ou Ode ao tijolo baiano


simples barraco na periferia
paira sobre o barranco inclinado
dentro do horizonte ocre de tijolo baiano
barreira de improviso que escora
onde por de trás se habita
entre vielas, travessas, escadas
o córrego fétido rasgando o cotidiano.

na transição, contradição, esquina
encontra sua definição e forma de ser
(quem olha apenas um lado, não vê)
ali vive, enorme, muitos de amor e dor
mãos calejadas, seios, crianças diversas
existência como enfrentamento e aresta
que resiste e floresce mesmo que lodo
por de trás da barreira de tijolo baiano

e muito mais, porque o tijolo baiano traz
tal textura e composição, de suor e areia
que conforma outro tipo de realidade
mais concreta do que ossos esmagados
igualmente sublime, prenhe de esperança
que se impõe impávida no corredor estreito
contra o chão de terra, a água suja, a fome
e a mão imunda dos donos da cidade

terça-feira, 31 de março de 2015

SORRISO É ALEGRIA?

Sorriem os cães, para a carniça que chora
(ditado popular do Laos)

Gritei por José Faustino em humilde casa no difícil Jardim Keralux. Atendeu uma senhora que botou a cabeça na janela e, quando eu disse ser do fórum, prontamente dirigiu-se para a porta e veio, em uma postura serena, com a suave curiosidade de quem tem um estranho batendo em sua porta. Uma pequena ansiedade e nervosismo, entremeado pelo sorriso cortês que manda o decoro, típico da surpresa, de algum objeto escondido que irá se revelar.

- Seu Faustino, José Faustino, é aqui?

Disse que não era, mas de modo incerto, meio inseguro, meio seco. Esboçou um leve sorriso, e desconfiei do possível sinal de mentira. Perguntei seu nome, tudo bem? e disse bom dia. Insisti:

- Ele mora aqui, ou morava? A senhora conhece ele?

- O que aconteceu?

- Sou do fórum, preciso entregar um documento pra ele, de um processo.

- Como assim? Posso ver esse papel? O que que é?

- É pra ele. A senhora conhece? É um processo da fulana contra ele...

- Ele não mora mais aqui. Ela sabe disso. Porque que ela coloca o endereço aqui de casa, se ela sabe que ele não mora mais aqui? Quem deu esse endereço? Eu não tenho mais nada a ver com isso.

- Mas a senhora conhece ou não ele? Não é nada não, é só uma dívida, cobrança na justiça.

Aproximou-se do portão, apoiou na grade, olhou nos meus olhos e disse, calmamente, com um tranquilo sorriso no rosto, o mesmo sorriso que estava impregnado em seu rosto quando abriu a porta, quando disse não conhecê-lo. Um sorriso que era um alento e uma armadura:

- É um filho da puta, um desgraçado. Morou aqui um tempo, estuprou minhas filhas e acabou com a minha vida... (pausa angustiante) O senhor quer deixar alguma coisa aqui, quer que eu assine algo?

Disse, e não parou de sorrir um instante, enquanto me mandava embora com Deus.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Teatro Mágico

Para meu amigo Gustavo

Havia uma bailarina voando
sobre a cabeça do palhaço
Havia música e sua consequência
sorrisos, piruetas e balanços
Havia pessoas e diferenças
Em um picadeiro de luz
Havia o que se via e se ouvia
E um pouco mais, substância éter
feita de beleza, sal e poesia
que recobriu a todas coisas e pessoas
verdadeiro como teatro, real como mágica

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Metrô

To com pressa, com licença
Existência em alta frequência
Asa de beija flor, microprocessador
Corredor esquerdo da escada do metrô

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O monge na cidade

O monge limpou o chão, arrumou suas vestes e sentou-se, em posição de meditação, e ali ficou por muitos milhares de anos. Permaneceu sentado, imóvel, sobre a mesma pedra na beirada do vale do rio grande, enquanto crescia em seu redor a enormidade da cidade, multiplicadora de pessoas e objetos despossuídos de sentido ou alma. Quanto maior a multidão solitária que o cercava, mais indistinto tornava-se, vibrando em tal frequência que seus limites físicos e espirituais atenuaram-se, tal que dissolvia sua presença como sal de frutas no copo d´água. Nesse instante, compreendeu todas as coisas do mundo, e sabia do futuro de todos os seres, mesmo dos que ainda não nasceram, ainda que nada pudesse dizer, pois a única coisa que esquecera foi a capacidade de falar, o que é diferente do domínio da linguagem. Voltava-se para dentro, como um enorme lago onde mergulhasse, e dali podia ver com mais detalhes o rastro dos movimentos das pessoas, o que havia de escondido em cada olhar, as meias palavras e as perversões mais íntimas. E ainda assim era o mesmo monge, mesmo que muito tempo se passasse, mesmo que em meio à muita gente se misturasse. E era esse mesmo monge quem observava a cidade que subia e os homens que passavam, mesmo que ele fosse apenas um outro entre tantos.