Toleima é sinônimo de tolice. Lembrei-me dessa palavra, meio arcaica, que só vi sendo usada por João Guimarães Rosa, pensando no time colombiano que o Corinthians enfrentará hoje, o Tolima. Não é qualquer tutaméia o jogo de que se trata (tutaméia é o título de um livro do mesmo escritor, e significa coisa pequena, sem importância, bobagem). Pelo contrário, depois de um sofrido empate aqui em São Paulo, onde o time jogou um futebol apático e insuficiente, a partida de volta assume contornos épicos, como só a literatura ou o futebol podem oferecer à humanidade.
O Corinthians conta com uma boa equipe, liderada por Ronaldo, espécie de herói que parece ter feito algum trato com o diabo, que lhe trouxe enorme habilidade e, sobretudo, imensa capacidade de superação. É a maior esperança de uma nação de religiosos, como foram aqueles que viveram em Canudos. O Tolima conta, por sua vez, com a força dos índios colombianos e com a fraqueza dos últimos resultados do Corinthians. Tem um bom centro avante, Wilder Medina, mas em geral um time mediano. Só que jogará em casa, em um gramado (ruim, por sinal) que já foi cemitério. Como as veredas mortas. Futebol é quase literatura.
Depois do centenário onde nada conquistou, uma derrota precoce na Libertadores, tão esperada pela Fiel, seria uma verdadeira tragédia, como a morte de Diadorim. A vitória, de sua parte, significaria o início da travessia. Time pra tanto o Corinthians tem. Só falta agora deixar de toleima e jogar bola. Não que a zebra esteja ausente – o sertão está em todas as partes. Para vencer, não basta um time bem montado e figuras de renome. É preciso colocar o coração na ponta da chuteira e enfrentar Hermógenes. Como canta a torcida, tem que jogar com raça e com coração, pois é o time do povo, o coringão. Literatura, meu senhor, é quase futebol.
Literatura, política e bobagens. Pra divulgar poesia e prosa. Pra ajudar na luta por mais felicidade e justiça. E pra diversão.
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Toleima e Tolima
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Marcio Rosa
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08:39
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domingo, 5 de dezembro de 2010
Um samba
Um samba revela.
Messias
Para os crentes.
Se imerso na dança, percebo,
delicados contornos
costelas, águas-vivas, úteros
ao longo da imprecisa sinergia que martela
surdo, cuíca, agogô.
E questionamos sistemas
nos passos que fincamos
E nos tornamos mais reais
na concentração da dança
quando luzimos em tons variados.
São infinitas possibilidades
Desfeitas em fios, cheiros e saudades
Absolutas alegrias, amores fantásticos, sorrisos imensos,
E seremos isso tudo
Que busco no samba
Que quero e não alcanço.
Messias
Para os crentes.
Se imerso na dança, percebo,
delicados contornos
costelas, águas-vivas, úteros
ao longo da imprecisa sinergia que martela
surdo, cuíca, agogô.
E questionamos sistemas
nos passos que fincamos
E nos tornamos mais reais
na concentração da dança
quando luzimos em tons variados.
São infinitas possibilidades
Desfeitas em fios, cheiros e saudades
Absolutas alegrias, amores fantásticos, sorrisos imensos,
E seremos isso tudo
Que busco no samba
Que quero e não alcanço.
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06:46
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quinta-feira, 28 de outubro de 2010
PENSAS QUE VOU TE PERDOAR?
Meu ódio vai evoluir, criar raízes e dar sementes
germinar frutos ocos e disformes
fétidos como a discórdia dos que não amam
Minha raiva vai afiar as esquinas do mundo
Retalhar rostos delicados e claros
ensinando a vingança às crianças e aos vegetais
Minha ira arrebentará seus poros e sorrisos
Cuspirá nas suas desculpas e violentará suas memórias
Apedrejará os monges, as mães e as virgens
Talvez assim eu encontre a paz.
germinar frutos ocos e disformes
fétidos como a discórdia dos que não amam
Minha raiva vai afiar as esquinas do mundo
Retalhar rostos delicados e claros
ensinando a vingança às crianças e aos vegetais
Minha ira arrebentará seus poros e sorrisos
Cuspirá nas suas desculpas e violentará suas memórias
Apedrejará os monges, as mães e as virgens
Talvez assim eu encontre a paz.
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06:13
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sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Salve o Corinthians
O Corinthians comemora seu centenário. Um século de vida, lutas e glórias. E, como diz o poeta, viver é muito perigoso. Quer dizer que a vida não é fácil e que aquele que reconhece essa condição pode vivê-la mais plenamente. Também por isso sou corintiano, maloqueiro e sofredor – pela realidade da vida, que só pode nos trazer tantas alegrias e surpresas na medida em que, às vezes, também nos traz sofrimento.
Quando um clube, assim como uma classe social, se distancia da dureza material da vida, passa a viver em um mundo imaginário e a acreditar que esse mundo imaginário é a vida real. Tive o imenso prazer de estar presente na festa que aconteceu no Anhangabaú. Realmente, uma festa do povo, digna daquele time que, já na sua fundação foi marcado pela fala, profecia e vaticínio de um de seus fundadores, o alfaiate Battaglia: “O Corinthians é o time do povo, e é o povo quem vai fazer o time”. A imensa festa popular explicitou essa realidade com a força das multidões e a beleza da paixão, desde o tamanho da multidão reunida até a presença dos ídolos do Corinthians.
A festa teve seu ápice quando, embalados pelas baterias das torcidas organizadas, mais de 130 mil pessoas entoaram o hino do clube em uníssono. Tive então a honra de ser apenas mais um naquele povo, e a emoção de compartilhar o amor que mais de 30 milhões de pessoas dedicam, sem esperar nada em troca, à República Popular do Corinthians.
Quando um clube, assim como uma classe social, se distancia da dureza material da vida, passa a viver em um mundo imaginário e a acreditar que esse mundo imaginário é a vida real. Tive o imenso prazer de estar presente na festa que aconteceu no Anhangabaú. Realmente, uma festa do povo, digna daquele time que, já na sua fundação foi marcado pela fala, profecia e vaticínio de um de seus fundadores, o alfaiate Battaglia: “O Corinthians é o time do povo, e é o povo quem vai fazer o time”. A imensa festa popular explicitou essa realidade com a força das multidões e a beleza da paixão, desde o tamanho da multidão reunida até a presença dos ídolos do Corinthians.
A festa teve seu ápice quando, embalados pelas baterias das torcidas organizadas, mais de 130 mil pessoas entoaram o hino do clube em uníssono. Tive então a honra de ser apenas mais um naquele povo, e a emoção de compartilhar o amor que mais de 30 milhões de pessoas dedicam, sem esperar nada em troca, à República Popular do Corinthians.
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10:15
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quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Suicida
Atirei-me do penhasco da vida, suicida e ansiosa
Sempre em busca de mais velocidade, mais atenção
Sempre confiando que não me arrebentaria no concreto
Mas faltaram as mãos que me segurariam pelo cabelo
Faltou o colo que me acalantaria em cafunés e fodas
O voo cego e a sensação de liberdade embotaram
meus sentidos de alumbramento, minha razão de loucura
E, aturdida, passei a confundir o êxtase com a liberdade
A buscar novas mãos e colos, novas paixões e gritos
Mas só então notei que a dor da queda pertence ao cotidiano
Descobrirei, logo, que meus desejos já estavam atendidos
E que sempre haverão novas vontades, já que sou infinita.
Sempre em busca de mais velocidade, mais atenção
Sempre confiando que não me arrebentaria no concreto
Mas faltaram as mãos que me segurariam pelo cabelo
Faltou o colo que me acalantaria em cafunés e fodas
O voo cego e a sensação de liberdade embotaram
meus sentidos de alumbramento, minha razão de loucura
E, aturdida, passei a confundir o êxtase com a liberdade
A buscar novas mãos e colos, novas paixões e gritos
Mas só então notei que a dor da queda pertence ao cotidiano
Descobrirei, logo, que meus desejos já estavam atendidos
E que sempre haverão novas vontades, já que sou infinita.
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Marcio Rosa
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07:29
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domingo, 8 de agosto de 2010
Kondratieff
Previu
Nos limites da ciência
a depressão econômica
conseqüências sociais
Hitler
,
etc
Expunha as fragilidades
e contradições, as vísceras
nuas e visíveis
como o sapo ou rato
da aula de biologia
E como um físico,
traçava trajetórias e via,
sapientia maxima
a realidade se mostrar
em ciclos e tendências
Disse também
que
o capitalismo pode se revigorar
pois crises já aconteceram antes;
E que é o capitalismo senão
a crise?
Fez uma grande descoberta
Nunca deixou de ser comunista
Então Stalin mandou matá-lo.
Nos limites da ciência
a depressão econômica
conseqüências sociais
Hitler
,
etc
Expunha as fragilidades
e contradições, as vísceras
nuas e visíveis
como o sapo ou rato
da aula de biologia
E como um físico,
traçava trajetórias e via,
sapientia maxima
a realidade se mostrar
em ciclos e tendências
Disse também
que
o capitalismo pode se revigorar
pois crises já aconteceram antes;
E que é o capitalismo senão
a crise?
Fez uma grande descoberta
Nunca deixou de ser comunista
Então Stalin mandou matá-lo.
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09:01
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quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Ode ao Jornal
Para meu amigo Pedro, o Grande
O tablóide grita a todos das asperezas do mundo
A profusão de gentes tantas e desgraças muitas
Os homens correm
A história explode
quem nos contará, fresco como o pão pela manhã
Inenarráveis antiodes dessa reportagem esfoliante?
As notícias correm
As respostas urgem
Todos os dias, desperto e me abro para o mundo
Esperançoso das soluções todas: temente a Deus
Corro as manchetes
Cotidiano em cinza
Que me escancara, austero, os índices da bolsa e
Os conflitos do Oriente médio Afeganistão Cuba.
Parem todos de correr!
Viu o jornal de hoje?
Explodiu a revolução socialista, em toda a parte
E começamos, todos nós, a escrever com sangue
o jornal nosso de cada dia
humanidade na 1ª página.
O tablóide grita a todos das asperezas do mundo
A profusão de gentes tantas e desgraças muitas
Os homens correm
A história explode
quem nos contará, fresco como o pão pela manhã
Inenarráveis antiodes dessa reportagem esfoliante?
As notícias correm
As respostas urgem
Todos os dias, desperto e me abro para o mundo
Esperançoso das soluções todas: temente a Deus
Corro as manchetes
Cotidiano em cinza
Que me escancara, austero, os índices da bolsa e
Os conflitos do Oriente médio Afeganistão Cuba.
Parem todos de correr!
Viu o jornal de hoje?
Explodiu a revolução socialista, em toda a parte
E começamos, todos nós, a escrever com sangue
o jornal nosso de cada dia
humanidade na 1ª página.
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Marcio Rosa
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15:19
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