O auditório lotado exalava a alegria da cerimônia de colação de grau. A cerimônia era a metáfora de uma porta, início de uma longa estrada, sendo que os graduandos estavam na grande sala oval antes da porta que agora atravessariam. Completando um ciclo, um rito de iniciação marca a abertura da porta, pois o rito consiste nos procedimentos necessários para a entrega da chave. Quando seu nome foi chamado percebeu em um lampejo que já estava na estrada, e não conseguia enxergar porta alguma, pois ele era um homem que só tinha futuro.
Recebeu o diploma com absoluta indolência e, orador da turma, dirigiu-se à tribuna: "Escolhi seguir a carreira de administração, pois nessa área é preciso ter, dizem, visão de futuro. E nada poderia ser melhor para mim, pois sou um homem que só tem o futuro. Talvez não compreendam ao certo o que quero dizer, e mesmo considerem algo abobado ou impossível o que vou lhes confidenciar. Mas, antes que pensem que eu estou usando de algum sofisma ou metáfora, quero dizer que minha afirmação, por mais absurda que pareça, deve ser encarada ao pé da letra.
"Claro que isso é impossível fisicamente, ainda que alguns experimentos quânticos sugiram alterações no fluxo do tempo, simultaneidade de eventos, chegando a considerar uma condição na qual o tempo ainda não existia, tal que a pergunta sobre o que antecedeu a origem não tem resposta. Só que não é disso que eu quero falar, ainda que a posição do observador influencie o objeto.
"Quero falar do futuro como única realidade válida para mim: nenhuma realização, todos os projetos; nenhuma mágoa, somente procura; nenhum prazer, toda sabedoria. Ao receber o diploma eu nada realizei, apenas abri outras oportunidades para seguir caminhando. Perco a liberdade por não ter presente enquanto ganho a plenitude por ser só esperança. O caminho apresentado, seguro e preparado, com suas etapas fixadas e seu calçamento calcificado, não está bem sinalizado: no passado mora a enganação.
"O futuro é o primogênito do nada: sem ele não haveria sentido para as coisas. Toda razão está no passado, todo raciocínio no presente: no futuro mora o sentido. O futuro é uma casa sempre distante. Não importa o quanto você ande, nunca alcançará a casa. Mas não se deve desistir – a derrota é o castelo do presente, tão alta que vira passado. As dificuldades podem ser imensas, mas sempre há um modo de alcançar o futuro: no futuro toca uma música que atrai até os mais céticos. Trata-se de compreender que entre o aqui e o futuro há uma distância a ser percorrida e não um tempo que vai passar: o tempo é só uma sequência de instantes.
Tudo ainda vai acontecer, e só sei conjugar os verbos no futuro – não como um profeta, mas como uma criança. Essa condição seria, talvez, um pouco angustiante, pela falta de referência e pela perda da experiência, mas ao invés de lamentá-la só sei ver as expectativas. Assim como a infância, quando o futuro é um campo sem caminhos traçados coberto pelo fresco orvalho da manhã. Talvez exista a maturidade, mas só o sábio dirá que sempre há mais algo a aprender".
Desceu do púlpito e, antes do olhar de estranhamento e reprovação virar o crescente murmúrio que quase desandou em briga, ausentou-se do ambiente de forma tão imprevista como o tom de divagação de seu discurso alcançou os ouvidos dos presentes. O momento de suspensão do comum – a cerimônia que servia como justificativa para que todos seguissem o caminho já dado que as pesadas mãos do passado ergueram como estradas romanas – depois da confissão pública que fizera, apareceu como um grande teatro, grande arena, cujos alicerces apodreceram, e nenhum engenheiro mais consegue explicar a escolha dos materiais.
Sua vida, somente futuro, impedia a compreensão normal do mundo, pois no início era o verbo (e ele não conhecia os princípios), e só o verbo se entende; impedia também sua presença nos acontecimentos (o presente lhe era estranho), e todos seus pensamentos se ancoram no futuro, sem moral e sem juízes, sem tradições e sem fatos para serem julgados. Saiu do prédio e uma infinidade de opções lhe apareceu no mesmo golpe de vista, como que um instante longamente estendido, e percebeu que já estava caminhando, e que sempre e só estivera caminhando, e que simplesmente seguia os caminhos.
Literatura, política e bobagens. Pra divulgar poesia e prosa. Pra ajudar na luta por mais felicidade e justiça. E pra diversão.
quinta-feira, 28 de julho de 2011
O HOMEM QUE SÓ TINHA FUTURO
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Marcio Rosa
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terça-feira, 19 de julho de 2011
Testamento de um rato
Todos os adjetivos, juntos, não bastam
para descrever, da metamorfose, a feição,
sem anestesia, sangrada em meu coração,
despedaçado, pela culpa da destituição.
A língua, em outros tempos, lasciva,
corroída, pela pútrida violência, cala,
pois o poeta, conturbado, é que fala
ser indigno de qualquer confiança.
Por isso, rato, mesmo que reproduza,
a forma, asquerosa e medrosa: pêlos
negros e disformes, como o caráter
do que pede clemência, ao esplendor;
rato, contudo, não é metáfora ideal,
pois os pobres animais, além de não
possuírem culpa ou sordidez, guardam,
subterrâneos, o respeito e a nobreza:
Na sua fealdade, parecem com o mal,
os rotos do mundo; no terror, indistinto,
a perseguí-los, são como os famintos.
Ora, de um rato, podemos ter certeza.
para descrever, da metamorfose, a feição,
sem anestesia, sangrada em meu coração,
despedaçado, pela culpa da destituição.
A língua, em outros tempos, lasciva,
corroída, pela pútrida violência, cala,
pois o poeta, conturbado, é que fala
ser indigno de qualquer confiança.
Por isso, rato, mesmo que reproduza,
a forma, asquerosa e medrosa: pêlos
negros e disformes, como o caráter
do que pede clemência, ao esplendor;
rato, contudo, não é metáfora ideal,
pois os pobres animais, além de não
possuírem culpa ou sordidez, guardam,
subterrâneos, o respeito e a nobreza:
Na sua fealdade, parecem com o mal,
os rotos do mundo; no terror, indistinto,
a perseguí-los, são como os famintos.
Ora, de um rato, podemos ter certeza.
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Marcio Rosa
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21:47
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segunda-feira, 18 de julho de 2011
Corsário na praia
Em frente ao mar, olho para o horizonte e reflito.
Sopra a maresia e minhas lembranças se condensam
Formam-se mais imagens em minha mente que nas retinas
Verdíssimas montanhas, plenas de mata, delimitam a praia
Insinuam-se sobre minhas memórias expandindo-as
Banhistas reais confundem-se com antigas paixões
Ondas de pensamentos se movimentam ao ritmo da maré
Enquanto molho os pés em águas carregadas de tempo
A imensidão do oceano estende-se à minha frente
Próximos de mim se divertem homens, mulheres e crianças
Singrando sobre conchas, peixes, algas e náufragos
No meu íntimo também há um imenso oceano
Com sua população de algas, peixes e angústias
Onde brincam sentimentos e afogam-se vontades
Enquanto a natureza demonstra enormes verdades
A luz do sol, no crepúsculo, incide na vida como um milagre
Colorindo de violeta os desejos e refletindo na água
Caminho para frente e sou benzido pelo sal marinho
Enquanto retorno a reminiscências do tempo de corsário
Todavia as ondas insistem em apontar-me a areia
Onde a beleza do sorriso de meu amor me guarda
Espero que ele possa servir de acalanto. Para todos, para tudo.
Sopra a maresia e minhas lembranças se condensam
Formam-se mais imagens em minha mente que nas retinas
Verdíssimas montanhas, plenas de mata, delimitam a praia
Insinuam-se sobre minhas memórias expandindo-as
Banhistas reais confundem-se com antigas paixões
Ondas de pensamentos se movimentam ao ritmo da maré
Enquanto molho os pés em águas carregadas de tempo
A imensidão do oceano estende-se à minha frente
Próximos de mim se divertem homens, mulheres e crianças
Singrando sobre conchas, peixes, algas e náufragos
No meu íntimo também há um imenso oceano
Com sua população de algas, peixes e angústias
Onde brincam sentimentos e afogam-se vontades
Enquanto a natureza demonstra enormes verdades
A luz do sol, no crepúsculo, incide na vida como um milagre
Colorindo de violeta os desejos e refletindo na água
Caminho para frente e sou benzido pelo sal marinho
Enquanto retorno a reminiscências do tempo de corsário
Todavia as ondas insistem em apontar-me a areia
Onde a beleza do sorriso de meu amor me guarda
Espero que ele possa servir de acalanto. Para todos, para tudo.
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Marcio Rosa
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17:21
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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Toleima e Tolima
Toleima é sinônimo de tolice. Lembrei-me dessa palavra, meio arcaica, que só vi sendo usada por João Guimarães Rosa, pensando no time colombiano que o Corinthians enfrentará hoje, o Tolima. Não é qualquer tutaméia o jogo de que se trata (tutaméia é o título de um livro do mesmo escritor, e significa coisa pequena, sem importância, bobagem). Pelo contrário, depois de um sofrido empate aqui em São Paulo, onde o time jogou um futebol apático e insuficiente, a partida de volta assume contornos épicos, como só a literatura ou o futebol podem oferecer à humanidade.
O Corinthians conta com uma boa equipe, liderada por Ronaldo, espécie de herói que parece ter feito algum trato com o diabo, que lhe trouxe enorme habilidade e, sobretudo, imensa capacidade de superação. É a maior esperança de uma nação de religiosos, como foram aqueles que viveram em Canudos. O Tolima conta, por sua vez, com a força dos índios colombianos e com a fraqueza dos últimos resultados do Corinthians. Tem um bom centro avante, Wilder Medina, mas em geral um time mediano. Só que jogará em casa, em um gramado (ruim, por sinal) que já foi cemitério. Como as veredas mortas. Futebol é quase literatura.
Depois do centenário onde nada conquistou, uma derrota precoce na Libertadores, tão esperada pela Fiel, seria uma verdadeira tragédia, como a morte de Diadorim. A vitória, de sua parte, significaria o início da travessia. Time pra tanto o Corinthians tem. Só falta agora deixar de toleima e jogar bola. Não que a zebra esteja ausente – o sertão está em todas as partes. Para vencer, não basta um time bem montado e figuras de renome. É preciso colocar o coração na ponta da chuteira e enfrentar Hermógenes. Como canta a torcida, tem que jogar com raça e com coração, pois é o time do povo, o coringão. Literatura, meu senhor, é quase futebol.
O Corinthians conta com uma boa equipe, liderada por Ronaldo, espécie de herói que parece ter feito algum trato com o diabo, que lhe trouxe enorme habilidade e, sobretudo, imensa capacidade de superação. É a maior esperança de uma nação de religiosos, como foram aqueles que viveram em Canudos. O Tolima conta, por sua vez, com a força dos índios colombianos e com a fraqueza dos últimos resultados do Corinthians. Tem um bom centro avante, Wilder Medina, mas em geral um time mediano. Só que jogará em casa, em um gramado (ruim, por sinal) que já foi cemitério. Como as veredas mortas. Futebol é quase literatura.
Depois do centenário onde nada conquistou, uma derrota precoce na Libertadores, tão esperada pela Fiel, seria uma verdadeira tragédia, como a morte de Diadorim. A vitória, de sua parte, significaria o início da travessia. Time pra tanto o Corinthians tem. Só falta agora deixar de toleima e jogar bola. Não que a zebra esteja ausente – o sertão está em todas as partes. Para vencer, não basta um time bem montado e figuras de renome. É preciso colocar o coração na ponta da chuteira e enfrentar Hermógenes. Como canta a torcida, tem que jogar com raça e com coração, pois é o time do povo, o coringão. Literatura, meu senhor, é quase futebol.
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08:39
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domingo, 5 de dezembro de 2010
Um samba
Um samba revela.
Messias
Para os crentes.
Se imerso na dança, percebo,
delicados contornos
costelas, águas-vivas, úteros
ao longo da imprecisa sinergia que martela
surdo, cuíca, agogô.
E questionamos sistemas
nos passos que fincamos
E nos tornamos mais reais
na concentração da dança
quando luzimos em tons variados.
São infinitas possibilidades
Desfeitas em fios, cheiros e saudades
Absolutas alegrias, amores fantásticos, sorrisos imensos,
E seremos isso tudo
Que busco no samba
Que quero e não alcanço.
Messias
Para os crentes.
Se imerso na dança, percebo,
delicados contornos
costelas, águas-vivas, úteros
ao longo da imprecisa sinergia que martela
surdo, cuíca, agogô.
E questionamos sistemas
nos passos que fincamos
E nos tornamos mais reais
na concentração da dança
quando luzimos em tons variados.
São infinitas possibilidades
Desfeitas em fios, cheiros e saudades
Absolutas alegrias, amores fantásticos, sorrisos imensos,
E seremos isso tudo
Que busco no samba
Que quero e não alcanço.
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06:46
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quinta-feira, 28 de outubro de 2010
PENSAS QUE VOU TE PERDOAR?
Meu ódio vai evoluir, criar raízes e dar sementes
germinar frutos ocos e disformes
fétidos como a discórdia dos que não amam
Minha raiva vai afiar as esquinas do mundo
Retalhar rostos delicados e claros
ensinando a vingança às crianças e aos vegetais
Minha ira arrebentará seus poros e sorrisos
Cuspirá nas suas desculpas e violentará suas memórias
Apedrejará os monges, as mães e as virgens
Talvez assim eu encontre a paz.
germinar frutos ocos e disformes
fétidos como a discórdia dos que não amam
Minha raiva vai afiar as esquinas do mundo
Retalhar rostos delicados e claros
ensinando a vingança às crianças e aos vegetais
Minha ira arrebentará seus poros e sorrisos
Cuspirá nas suas desculpas e violentará suas memórias
Apedrejará os monges, as mães e as virgens
Talvez assim eu encontre a paz.
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06:13
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sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Salve o Corinthians
O Corinthians comemora seu centenário. Um século de vida, lutas e glórias. E, como diz o poeta, viver é muito perigoso. Quer dizer que a vida não é fácil e que aquele que reconhece essa condição pode vivê-la mais plenamente. Também por isso sou corintiano, maloqueiro e sofredor – pela realidade da vida, que só pode nos trazer tantas alegrias e surpresas na medida em que, às vezes, também nos traz sofrimento.
Quando um clube, assim como uma classe social, se distancia da dureza material da vida, passa a viver em um mundo imaginário e a acreditar que esse mundo imaginário é a vida real. Tive o imenso prazer de estar presente na festa que aconteceu no Anhangabaú. Realmente, uma festa do povo, digna daquele time que, já na sua fundação foi marcado pela fala, profecia e vaticínio de um de seus fundadores, o alfaiate Battaglia: “O Corinthians é o time do povo, e é o povo quem vai fazer o time”. A imensa festa popular explicitou essa realidade com a força das multidões e a beleza da paixão, desde o tamanho da multidão reunida até a presença dos ídolos do Corinthians.
A festa teve seu ápice quando, embalados pelas baterias das torcidas organizadas, mais de 130 mil pessoas entoaram o hino do clube em uníssono. Tive então a honra de ser apenas mais um naquele povo, e a emoção de compartilhar o amor que mais de 30 milhões de pessoas dedicam, sem esperar nada em troca, à República Popular do Corinthians.
Quando um clube, assim como uma classe social, se distancia da dureza material da vida, passa a viver em um mundo imaginário e a acreditar que esse mundo imaginário é a vida real. Tive o imenso prazer de estar presente na festa que aconteceu no Anhangabaú. Realmente, uma festa do povo, digna daquele time que, já na sua fundação foi marcado pela fala, profecia e vaticínio de um de seus fundadores, o alfaiate Battaglia: “O Corinthians é o time do povo, e é o povo quem vai fazer o time”. A imensa festa popular explicitou essa realidade com a força das multidões e a beleza da paixão, desde o tamanho da multidão reunida até a presença dos ídolos do Corinthians.
A festa teve seu ápice quando, embalados pelas baterias das torcidas organizadas, mais de 130 mil pessoas entoaram o hino do clube em uníssono. Tive então a honra de ser apenas mais um naquele povo, e a emoção de compartilhar o amor que mais de 30 milhões de pessoas dedicam, sem esperar nada em troca, à República Popular do Corinthians.
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Marcio Rosa
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