quarta-feira, 23 de maio de 2012

COMUNISTAS CONFUSOS

Para Jorge Almeida e Ivan Valente

Comunistas confusos se despedem
As armas se esbarram, úmidas de lágrimas, de sangue
O barulho é desagradável
Como quem busca ofender uma criança, um rio calmo
Anos dividindo trincheiras
Permitem solenes apertos de mão, ecos do coração
Conversas atravessadas
Estraçalharam fios de solidariedade e cristais de confiança
Comunistas confusos sabem que
revolução é paixão e razão, em boa parte cacofonia
E que se perdendo encontraremos novos caminhos
Pois a luta é uma só. E venceremos juntos.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

POLÍTICA DE TRANSPORTES


Manifestação
contra o caos no transporte em São Paulo
Interrompida
Pelo barulho
do helicóptero do dono do banco Safra

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Naufrágio


Brilhava indiferente sob as vagas
esdrúxulo corpo oscilando na baixa maré
impossível e náufraga embarcação
cheia de mistérios, como uma lenda, uma dama
um objeto de utilidade desconhecida

Que desígnio do destino atirou-lhe em tal praia, deserta que Crusoé?
Partiu-se e afundou? Sobreviveram seus tripulantes?
Alguma gaivota observou seu ocaso?

Significa algo o brilho do sol contra a aresta
do casco arrombado do convés?
Ou é apenas o poeta que busca, perdido, mais que desertos, amigo Crusoé,
na imensa ilha da vida?

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Bailando


Para Mônica, em nome dos bailarinos

Antes de dançar, voava
O pai perguntou: onde anda sua cabeça?
Não sabia ao certo, mas sabia que isso não importava
Pois seus pés tocavam as estrelas
e o coração roçava o infinito

Por voos mais belos, a dança
Ser mais leve que o ar e mais pesado que o chumbo
Até derreter o palco, virar-nos em vida.

Ser projétil, puta e anjo é mais do que ser bailarina.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Lésbicas

para a amante de minhas mulheres

Gosto de suas curvas
                Peitos, bundas e cinturas
Gosto mesmo do encaixe
                Palmas, clavículas, odores
Mais ainda de penetrar
                Suores, sussurros, segredos
E, claro, de meter
                Bem fundo, bem forte
Meu amor e meu carinho,
                No teu útero, na tua vida.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Sinestesia


Explode o sentido das palavras
quando sorrindo me agride,
procissão solitária de encantos.
O choro se torna azul, o sol vegetariano
o céu obtuso e as mesas adocicadas.
Derreto e escorro lenta, pesadamente
seguindo a eterna corrente das coisas
e a própria poesia se desfaz
como um copo plástico ao fogo.

Amo-te como a um objeto perfeito
rigorosamente esférico e translúcido
preparado desde o Gênesis
por um matemático, um alquimista
um poeta, um louco, uma puta.
Isento de arestas, de porosidades, de falhas.
Só amor, simplesmente.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Unicórnio Azul


Com Ceci

Afasto-me de ti, como Ulisses
Só pra que minha saudade fique maior
me consuma e me renove

Então, monto em meu unicórnio
azul de esperança, arisco de liberdade
E saio a buscar o mito de sua figura

Quando acabarei  com a falta
beijarei minha única heroína
e me entupirei de cores e paixão