To com pressa, com licença
Existência em alta frequência
Asa de beija flor, microprocessador
Corredor esquerdo da escada do metrô
Literatura, política e bobagens. Pra divulgar poesia e prosa. Pra ajudar na luta por mais felicidade e justiça. E pra diversão.
terça-feira, 25 de novembro de 2014
Metrô
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Marcio Rosa
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06:27
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quarta-feira, 3 de setembro de 2014
O monge na cidade
O monge limpou o chão, arrumou suas vestes e sentou-se, em
posição de meditação, e ali ficou por muitos milhares de anos. Permaneceu
sentado, imóvel, sobre a mesma pedra na beirada do vale do rio grande, enquanto
crescia em seu redor a enormidade da cidade, multiplicadora de pessoas e
objetos despossuídos de sentido ou alma. Quanto maior a multidão solitária que
o cercava, mais indistinto tornava-se, vibrando em tal frequência que seus
limites físicos e espirituais atenuaram-se, tal que dissolvia sua presença como
sal de frutas no copo d´água. Nesse instante, compreendeu todas as coisas do
mundo, e sabia do futuro de todos os seres, mesmo dos que ainda não nasceram, ainda
que nada pudesse dizer, pois a única coisa que esquecera foi a capacidade de
falar, o que é diferente do domínio da linguagem. Voltava-se para dentro, como
um enorme lago onde mergulhasse, e dali podia ver com mais detalhes o rastro
dos movimentos das pessoas, o que havia de escondido em cada olhar, as meias
palavras e as perversões mais íntimas. E ainda assim era o mesmo monge, mesmo
que muito tempo se passasse, mesmo que em meio à muita gente se misturasse. E
era esse mesmo monge quem observava a cidade que subia e os homens que
passavam, mesmo que ele fosse apenas um outro entre tantos.
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Marcio Rosa
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07:22
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quinta-feira, 28 de agosto de 2014
Busca e apreensão da menor Kauany
"O MM. Juiz de direito da vara de família manda qualquer oficial de justiça que cumpra a busca e apreensão da menor ..."
Os demônios tão querendo alguma coisa, tão falando de mim,
falando que vão tomar a minha filha, que vão me mandar pro hospício. E essa
menina, aqui em casa, todo mundo diz que tá doente, que tem essa tal síndrome
de Down. Eu só queria que deixassem a gente em paz, que Jesus vai salvar a
gente. Aí, tão na porta de novo, me chamando...
Dona Maria, tem uma compra para a senhora aqui fora. É mesmo
Dona Maria, abre a porta. Tem doação da Igreja para a senhora. Jesus mandou não
abrir a porta hoje. Tá muito escuro, sempre está. Lembro quando ela abriu a
porta, e eu ia naquele lugar cheio de crianças. Gostava mesmo quando saí na
rua. Lá fora é claro, cheiroso. Hoje ela
tá ruim mesmo pastor, não quer nem abrir a porta. Não posso ficar mais minha
filha, mas estou torcendo para que dê tudo certo. Deus vai interceder por ela.
Passa pela janela que é pouca compra, não posso abrir a
porta. Aquele moço que a mãe chama de pastor veio aqui. Gosto dele, a mãe abre a
porta. Será que está ali fora ainda? Acho que dormi e acordei de novo. Não, não
quero abrir aporta. Eu odeio você. Eu não quero essa porcaria de queijo. Para,
para de gritar mãe, que eu fico com medo. E ainda tá escuro, depois que eu abri
os olhos. Ela não quer mesmo abrir, não adianta. Acho melhor esperar o oficial
de justiça chegar, daí a gente vê o que faz. Cadê minha filha? Jesus disse pra
não abrir a porta hoje para ninguém.
Chega pra cá minha filha. Tá com fome? Vou fritar frango e
linguiça. E botar água para ferver. Vou fazer mandioquinha. Eu gosto de
mandioquinha. Jesus que mandou. É meu pai que traz, entrega pela janela. O moço
que a mãe chama de pastor também traz comida pra gente. Gostei quando vem minha
outra mãe, que traz brinquedo. Meu pai e minha outra mãe moram em outro lugar,
e minha mãe não gosta. Não gosta também de sair de casa, nem de brincar. Vamos
esperar mais um pouco, que o oficial deve estar chegando. Vamos, vamos sair
todos daqui de cima.
Minha filha, estão olhando pra gente. Sai daqui, sai, sai! Tem
um monte de gente lá fora, será que vieram me visitar, me levar pra passear? São
muitos demônios lá fora, vão pegar a gente. Se protege, sai de perto dessa
janela menina, sai! Lá fora tá claro, dá pra correr. Não gosto de sempre só
ficar aqui. É escuro, e tem bichinhos. Os bichinhos são chatos, não gosto dos
bichinhos. Os demônios que estão virando bichinhos. Jesus mandou a porta ficar
fechada. Bom dia, oficial. E aí, como vamos fazer? Eu? Eu não sei não. Achei
que vocês do CAPS é que iam conduzir as coisas.
A senhora é parente dela? E ela não quer atender a senhora
também? Nem ninguém mais, né? Bom dia seu Antônio. E aí, como estão as coisas?
Sim, fique tranquilo, que vai dar tudo certo. Mas como ela está? Doente, né?
Mas ela é brava, briga com os outros? Mãe, porque tem tanta gente lá fora? Tô
vendo pelo buraquinho. Foram eles que trouxeram os bichinhos? Dona Maria, sou
eu de novo. A senhora não vem aqui falar comigo? Não vou abrir a porta, eu não
posso. Não, não poso! Saí daqui que você é amaldiçoado. Sai, sai!
Qual o plano então? Vamos ficar bem quietinhas, ehn?! Os
demônios, essa gente toda lá fora. Vamos derrubar a porta e amarrar a mãe? Beleza,
mas vocês tem certeza? E a menina, quem vai pegar? Tem que tomar cuidado que
tem a o sofá bem perto da porta, pode cair em cima. Água fervendo é foda, ehn? Ela
já tinha ameaçado de jogar outras vezes? Acho melhor a gente esperar mais
ajuda, talvez chamar a polícia... Ai, eu queria falar com minha outra mãe.
Amaldiçoados, estão querendo sujar a minha casa, entrar pelos buracos. Os
bichinhos são demônios? Todo mundo lá fora é demônio. Jesus me falou para não
abrir a porta.
Como eu gostei quando a porta ainda podia abrir, quando eu
saía e ia na igreja, e ia na escola. Minha mãe gosta muito da igreja. Gosto
daquele homem que a mãe chama de pastor, ele traz comida pra gente. Minha mãe
fica boazinha quando fala com ele. Vou cozinhar alguma coisa pra gente comer,
menina. Vou fritar frango com linguiça, ovo com bife. Cuidado aí na escada, é
melhor esperar os bombeiros chegarem. Ela ameaçou jogar água fervendo, tem água
na panela. Lá fora tem sol, eu não gosto do escuro e nem dos bichinhos. Vamos
rezar, menina, rezar para ser abençoada. Só Jesus vai nos salvar dos demônios.
Não, não vou abrir a porta. Você não é ungido, não é meu
amigo. Sai de perto da porta, Jesus mandou sair de perto. Vocês são todos
amaldiçoados. Cadê o pastor? Como assim, você que é policial não vai abrir a
porta? Porra mano, a mulher falou que vai jogar água fervendo. Vou é chamar os
bombeiros. Calma aí que eles já vem. Os demônios não podem entrar aqui. Sai de
perto da porta menina. Tá claro lá fora. Será que trouxeram alguma coisa pra
mim? Eu queria sair, ver o que está acontecendo lá fora. Porque será que tem
tanta gente aqui em casa? Vieram me visitar? Será que trouxeram alguma coisa
para mim. Eu gosto de bonecas, mas a minha quebrou, tá sem a cabeça.
Ela estava melhor, chegou até a frequentar o CAPS. E a
menina estava na escola. É, estava muito melhor do que hoje. Nem sei quanto
tempo estão trancadas lá dentro, acho que quase um ano. Não deixo faltar nada,
mas estou preocupado com elas. Ela é um boa mãe, cuida bem da criança. Pena que
tem esse problema. Agradeço muito o senhor, está sendo muito atencioso,
ajudando mesmo a gente. Minha esposa é que vai ficar com a menina. Amenina tem
um problema, sabe, tem síndrome de Down, é meio assim. Eu fico muito triste com
tudo isso. Fico pensando se não foi culpa minha, acabei saindo de casa. O
senhor é meu pastor, nada faltará.
Malditos demônios, malditos. Mãe, tem gente lá fora. Porque
a gente não fala com eles? Que luz estranha mãe, que barulho. Fica quieta aí
menina, eles não gostam da gente, vão fazer maldade. Vamos rezar, minha filha,
vamos rezar. E aí gente, o que está acontecendo? Água fervendo?!?! Porra, tenso,
ehn?! Vamos entrar sim, prepara o equipamento de proteção. Pode deixar, vamos
falar com ela. Vou falar que tô carente, duvido que ela não abra. Hahaha. Ai,
moço, será que vamos conseguir agora? Vamos, meu amigo, vai ficar tudo bem,
você vai ver.
Não, não quero falar com ninguém! Você é ungido? Não posso
abrir a porta. Oi minha senhora, tudo bem? Me falaram que a senhora tá
precisando de ajuda, vim aqui ver o que é. Sai daqui, foi o demônio quem mandou
você vir. Leva embora os bichinhos que você trouxe. Calma minha senhora, vamos
conversar. Não quero conversar com ninguém, vocês não são abençoados. Cadê o
pastor? Quero falar com ele. Mãe, é um bombeiro. Que legal. Deixa ele entrar,
vai?
Você não é meu amigo. Vim aqui para ajudar, seus parentes
estão preocupados. Abre a porta pra mim, vai? Pode ver que não tenho nada
comigo. Essa roupa? É que falaram que a senhora é brava. Se eu tirar o capacete
a senhora abre a porta pra mim? Cuidado aí meu amigo. Se forçar a porta pode
derrubar em cima de alguém ou de alguma coisa. Ai, o que será que ele está
falando para ela? Olha, olha só, ele conseguiu entrar.
Vamos, minha filha, que Jesus está me chamando. Ele está no
hospital, e pediu pra eu ficar lá um pouco, dando uma descansada. Falou que o
médico vai cuidar de minha cabeça. Vou passear na rua. Nossa, que bonito é aqui
fora. Tinha até me esquecido. Dá pra correr, tem o sol, várias pessoas e um
monte de coisas. A rua é bonita, aqui fora é o lugar mais bonito do mundo. Você
é ungido? Sabia que você era abençoado. Você é meu amigo.
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Marcio Rosa
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quinta-feira, 17 de abril de 2014
Almoço
Bolinhas dançam
Mãos hábeis do menino de rua
Assisto pelo vidro do restaurante
Isolado da rua
E enfio o garfo na boca
Cheio de arroz, carne e desigualdade
Doce de leite de sobremesa
Observado por olhos que pedem algo
do
outro lado
do
vidro
Mas que não posso ouvir.
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Marcio Rosa
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quarta-feira, 20 de novembro de 2013
Agrido
Mastigo lentamente palavras que misturo com vidro
Ruminando uma massa disforme de sangue e ódio
Que cuspo sobre flores e amores
Incapaz de resposta outra à solidão das coisas e miséria do
mundo
Agrido atendentes, amigos, paixões e desconhecidos
Com precisão de punhal e força de um viking que se afoga
Mas a ferida maior é sempre em mim que dói
A ferida enorme e incurável da impotência
Não sou Raskholnikov, nem sofro do fígado
Ataco de forma racional, científica, só para sentir algo
mais
A raiva com que me responde, então, confirma minha
existência
Esvazia meu ser de angústias e me liberta de mim mesmo
A sinceridade do amor sem convenções agride:
Dor da criança nascendo, que ilumina toda existência.
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Marcio Rosa
às
04:52
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quinta-feira, 1 de agosto de 2013
Dentista
Tive um problema com um dos dentes e ele quebrou, em dois
momentos, ficando só com uma pontinha pendurada. Fui a um dentista, emergência, e uma mocinha me
atendeu, observando que a dor que eu sentia quando fechava a boca era resultado
da pressão que a pontinha solta fazia contra a gengiva, por dentro. Sugeriu,
como solução provisória, arrancar a pequena e incômoda lasca. Aí já tive um
pressentimento do que estaria por vir, quando ela valeu-se de um alicate para
extrair, abruptamente, o pedaço saliente, após uma rápida anestesia.
Impressionou-me, confesso, a praticidade sem rodeios com a qual tratou meu
doloroso trauma bucal. Marquei o retorno para dois dias depois.
Aquele consultório de pareceu, então, transformar-se em uma
espécie de máquina do tempo, conforme o tratamento prosseguia. De início, pareceu-me
que oferecia-me avançar na história, realizando um tratamento altamente
tecnológico, obra prima da bioengenharia, com o implante de um pino de um metal
nobre, titânio (ou seria adamantium?), em um procedimento simples e indolor. E
que antes seria preciso, apenas, extrair a parte que restou do dente,
basicamente a raiz, sem a parte de cima, a coroa do dente.
O consultório, asséptico, tinha ares modernos, com detalhes estilizados nas paredes e equipamentos modernos nos consultórios. Uma enfermeira pediu pra eu bochechar um treco, "sem enxaguar depois, tá?". Colocou uma touca na minha cabeça e algo parecido com a touca de cabelo no meu sapato (na verdade, eu estava de chinelo e o resultado ficou meio estranho). E então entrei na sala do dentista, um cara meio gordinho e loiro, parecido com o ator do filme "Capote". Um cara grande, registre-se, que realizaria ambos procedimentos, a extração e o implante.
Sentando na cadeira, contudo, a máquina do tempo retornou velozmente ao passado, e eu nem percebi.
Colocou um "campo" sobre mim, um pano com um furo,
que delimita o espaço de trabalho do médico, ao mesmo tempo em que tampa a
visão do paciente. Postou-se de um lado e pediu para uma enfermeira ficar do
outro, com um sugador nas mãos e servindo também como instrumentadora. E
observou que, como o dente em questão havia sido submetido a um tratamento de
canal, ele "morreu", e estava calcificando-se no osso da mandíbula, o
que poderia dificultar um pouco a extração. Deu-me algumas agulhada de
anestesia, e pediu que eu abrisse "bem grande" a boca.
Pela fresta do campo pude ver que a primeira ferramenta que ele usou parecia uma chave de fenda, das grandes. Passou a fazer pressão sobre o dente, ao que parece procurando soltá-lo de sua base, e encontrou alguma dificuldade. Daí em diante o quadro só piora.
Pisou em um pedal e ergueu o encosto da cadeira, colocando-me quase sentado, e começou a fazer uma força crescente, agora usando duas daquelas "chaves de fenda". De fato, não doeu quase nada, a não ser em alguns pequenos pontos, de forma discreta, e então mais anestesia era dada. Nesse momento já fiquei preocupado, e percebia-me um pouco tenso, e decidi colocar o braço para fora, a postos para ser levantando denunciando alguma dor mais forte. Meu primeiro susto, que é a confirmação do receio, aconteceu com o primeiro estalo que ouvi, quando percebi um solavanco com as chaves de fenda. Para ampliar o desconforto, não enxergava tudo o que estava acontecendo, e ficava meio fragilizado nessa condição de desconhecimento. Levantei a mão e perguntou-me se era "dor ou pressão".
Meu desconforto aumentou bastante quando depois de muito forçar a base (e minha gengiva), trocou de ferramenta, segurando então uma espécie de alicate de bico fino, com um vigoroso cabo serrilhado de aço inoxidável, e segurou uma saliência. Pensei que puxaria, apoiando-se nessa pegada, mas em pouco outros estalos, quando percebi estilhaços em minha boca. Percebi então uma tensão por todo o corpo, que retesava meus punhos e pernas. A enfermeira seguia frenética com seu sugador, e o dentista mudava de posição como quem procura um ponto de apoio melhor para fazer força.
A ideia era ir forçando para os lados, laceando a base, e o dentista ia alternando as ferramentas, entre o par de chaves de fenda, e às vezes uma ou outra chave era usada -isoladamente, e o alicate. Arrancar aquele dente parecia estar sendo mais difícil do que esperava-se, e essa percepção, mais difusa, alardeava-me intimamente. E passei a perceber que a gengiva, no local da intervenção, estava machucada, com bastante sangue. Conforme agonia se prolongava, minhas pernas iam se retorcendo, e meus braços apertavam os braços da cadeira com força.
Alguns estalos a mais, e o dentista pediu para a enfermeira um "fórceps 65 ou 69, para raiz". Ela procurou, não achou e pediu para outra enfermeira que procurasse com um colega. Nesse momento o dentista deu uma parada e disse que eu poderia descansar um pouco, e comentou "tá difícil mesmo tirar essa raiz. quando faz canal é assim...". Perguntei, já querendo ver logo o fim daquilo, se estávamos perto do fim. "40%".
Seguiu tentando lacear o dente, e puxar, quando veio com outra tentativa, qual seja quebrar partes do dente usando a broca. Aí fiquei realmente incomodado, e percebi que me retorcia na cadeira, enquanto notava um cheiro de queimado saindo de minha boca.
Nesse momento, minha própria disposição já tinha mudado. Não mais queria "só não passar dor". Queria mesmo que aquilo acabasse logo. Pensava em coisas como "será que sobreviveria à tortura?" e "nunca mais deixo de cuidar de meus dentes". Escorregava da cadeira e estava todo tenso, às vezes grunhindo de paúra. Não mais me importava com a crescente pressão sobre meus dentes e gengiva, com o buraco vertendo sangue na minha boca, com o cheiro de queimado, com a enfermeira maníaca do sugador, só queria que aquilo acabasse.
Foi quando, mesmo causando um pouco de dor, o dentista forçou e o dente finalmente cedeu, em um estalo um pouco mais acentuado. Pegou o fórceps e ainda precisou fazer alguma força para conseguir extrair essa primeira metade. Ato contínuo, forçou um pouco mais o segundo lado, já meio sem paciência, e esta logo cedeu, também estalando em um pequeno tranco, sendo finalmente retirado para meu alívio. Tive vontade de chorar, não de dor, mas pela violência cometida.
***
Para acabar, o implante. Depois de um breve descanso, com a
boca latejando, mesmo anestesiada, e com o sangue vertendo (enquanto a
enfermeira sugava a saliva e o sangue, insistentemente, obssessivamente),
iniciou-se o implante, aproveitando a
"abertura" que havia.
Usou o motor convencional, esse de obturação, que aliás já tinha usado para quebrar o dente, adaptando uma broca em sua ponta, não fininha com aquela pontinha redonda, mas uma broca mesmo, certamente de um pequeno calibre, mas imaginei enxergar até os sulcos helicoidais típicos de brocas de madeira ou concreto. Ajustou minha posição na cadeira, e disse, testando a broca ao alcance de meus olhos, "agora será mais tranquilo".
Furou minha mandíbula e colocou um pino de metal no buraco, rosqueando.
Deu cinco pontos no buraco de minha gengiva.
Quando saí de lá senti uma tristeza profunda que demorou
mais a passar do que minha dor. Pensei que poucas coisas podiam ser mais
bárbaras do que descrever essa intervenção.
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Marcio Rosa
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22:52
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terça-feira, 21 de maio de 2013
Atendente brasileiro explica cardápio
Ao indiano curioso e acobreado.
Restaurante de comida típica na Augusta
Em orquestrado desencontro global.
Ao indiano curioso e acobreado.
Restaurante de comida típica na Augusta
Em orquestrado desencontro global.
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Marcio Rosa
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07:24
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