quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

desde a vila dos pescadores



desde a vila dos pescadores
entre seres marítimos e líquidos
observa
explode o futuro junto à
linha do horizonte
e depois



quarta-feira, 25 de novembro de 2015

SÓ POR TI POSSO SER

seu corpo está escondido nas sombras dos arcos da Lapa
nas minhas memórias mais profundas sublimes sacanas
minha traição é da profundidade do big bang
por isso me derreto em lágrimas sob os braços de cristo
e chamo teu nome em muitas línguas que desconheço

aguardo seu retorno como um morcego que persegue um eco
sua distância pesa-me como uma falta inexplicável
minhas faltas me consomem como um verme na carne podre
(e sou eu mesmo o verme e a carne)
e só consigo vagar como um zumbi entre bêbados

antes de dormir deliro e te construo nos meus detalhes
tormento que é o peso que aciona a lâmina da guilhotina
movimenta a máquina da loucura que transpõe os limites
conduz aos pântanos do paraíso, retira-me do meu animal
secreta uma substância pura de amor.


só por ti posso ser

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

SEM SENTIDO

Poesia é imagem, ilusionismo, mesmerismo
Palavras para algo que a palavra não alcança
Para revelar o que não se vê, o fantástico
Poesia não tem serventia para o óbvio

O capitalismo não faz sentido, para ele não há
poesia

A tragédia em Mariana, o mar de lama e lucros
Os atentados em Paris e os caças franceses
o pequeno menino turco nas areias da Europa
os mortos pela Polícia Militar e as mães em pranto

O capitalismo não faz poesia, para ele não há

sentido

sábado, 14 de novembro de 2015

Papai

Maior poema
Única palavra
Primeira vez:
Papai!
E chorou
Camões, Pessoa, Drummond.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

A PM tem que acabar

Pequenino e brilhante, caminhava a criança
pelas ruas estreitas do complexo, de barro
Ia comprar bolinhas e sonhos na venda
moedas que mal cabiam na mãozinha

Sua fragilidade singela, seu futuro e seus pais
Tudo estraçalhado pela bala do fuzil da PM
Profanando toda a pureza em sangue
infestação de vermes, carne apodrecida, a morte

A poesia se afoga em uma gosma asquerosa
Hecatombe onde nada mais resta ou resiste
Só os escombros de edifícios e construções
e as lágrimas da mãe que chora desesperada.

O poeta também chora as crianças assassinadas
imigrantes, faveladas, negros e todos que clamam
Lamenta sua incapacidade, sua pequenez
A miséria de ser apenas um simples homem

enquanto uma chuva de pequenos cacos desaba
Os vidros e espelhos de nosso mundo se estilhaçam
cortando pele e convicções, sangrando o globo ocular

E o cheiro de tudo que sobra é azedo e desconfortável.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

A CRIANÇA TURCA




















para Aylan e Galip Kurdi

Aquela criança fugia da guerra
morreu afogada na travessia.
Todas nossas crianças queridas
morreram afogadas na travessia
fugindo da guerra

Antes de sair de casa
sorria com o irmão e seu ursinho
a mãe lhe arrumou para passeio
bermudinha, camiseta, cabelo penteado
um beijinho antes de partir

Encontrou apenas desespero e morte,
(e não há pior que afogamento).
O petróleo e a geopolítica afogaram os sorrisos
dos dois irmãos com o ursinho de pelúcia
que iriam passear e encontrar papai

A humanidade morreu afogada na guerra
assassinou as crianças na travessia
de bermuda e camiseta, dormindo
acalantadas apenas pelo profundo oceano
distante de qualquer coisa de gente.


segunda-feira, 8 de junho de 2015

ARQUITETURA DA SOBREVIVÊNCIA

ou Ode ao tijolo baiano


simples barraco na periferia
paira sobre o barranco inclinado
dentro do horizonte ocre de tijolo baiano
barreira de improviso que escora
onde por de trás se habita
entre vielas, travessas, escadas
o córrego fétido rasgando o cotidiano.

na transição, contradição, esquina
encontra sua definição e forma de ser
(quem olha apenas um lado, não vê)
ali vive, enorme, muitos de amor e dor
mãos calejadas, seios, crianças diversas
existência como enfrentamento e aresta
que resiste e floresce mesmo que lodo
por de trás da barreira de tijolo baiano

e muito mais, porque o tijolo baiano traz
tal textura e composição, de suor e areia
que conforma outro tipo de realidade
mais concreta do que ossos esmagados
igualmente sublime, prenhe de esperança
que se impõe impávida no corredor estreito
contra o chão de terra, a água suja, a fome
e a mão imunda dos donos da cidade